Vitórias nas Presidenciais: a primeira, a maior e as adiadas

Em 1991, as presidenciais foram um autêntico passeio, no ano que marcou a mais dilatada vitória destas eleições. Poucos anos depois, os mandatos seguintes também foram marcantes, por outras razões.

João Nápoles
João Nápoles Editor-executivo
12 jan. 2026, 08:00

Jardim so Palácio de Belém, com o Palácio ao fundo iluminado por sol de fim de tarde
Fotografia: Mário Soares teve "a chegada" mais folgada a Belém (Rui Ochoa/Presidência da República)

Do anúncio da candidatura à eleição, Ramalho Eanes precisou apenas de pouco mais de um mês. O consenso político e popular em torno do General - foi o escolhido pelo Conselho da Revolução, apoiado por PS e PPD - já fazia adivinhar o nome que dominaria a primeira eleição presidencial em democracia, ainda que não o resultado.

No verão de 1976, a primeira corrida ao cargo de mais alta figura do Estado coroou Eanes com a vitória mais expressiva conquistada numa primeira volta: 2,9 milhões de eleitores votaram no vencedor anunciado, que conseguiu 61,59% dos boletins. Mas, mesmo sendo ainda hoje uma vantagem histórica, as expectativas eram ainda maiores.

A verdade é que, além da candidatura de uma figura tão popular como Pinheiro de Azevedo, que conseguiu 14% dos votos, outra surpresa da noite foi a percentagem conseguida por Otelo Saraiva de Carvalho. O capitão de Abril foi o segundo candidato mais votado, conquistando 16,46% do eleitorado, tendo mesmo ganhado no distrito de Setúbal.

 

Da vitória adiada à maior vitória

Mas, se mais de 61% dos votos é uma prestação expressiva, sobretudo numa primeira volta, houve quem tenha conseguido uma vitória ainda maior. Aconteceu em 1991, na reeleição de Mário Soares. Na altura, com Basílio Horta, Carlos Carvalhas e Carlos Marques da Silva também nos boletins, o ex-primeiro ministro teve um autêntico passeio nessas eleições, com 70,35% dos votos. 

Essa é, de longe, a maior vantagem já conseguida em presidenciais, curiosamente cinco anos depois da única segunda volta que até agora se registou. Em 1986, ficou célebre a batalha Freitas-Soares, ganha tangencialmente pelo socialista (51,18%). Para aí chegar, foi preciso crescer e muito face à "derrota" da primeira volta: Mário Soares não foi além dos 25%. Apenas mais 5% do que Salgado Zenha, quando Freitas do Amaral, primeiro classificado na primeira volta, conseguiu 46%. 

 

O presidente que perdeu eleições

Da análise histórica dos resultados das presidenciais, destaca-se ainda algo que só aconteceu uma vez: um recandidato venceu eleições. Foi no dia 22 de janeiro de 2006, quando Aníbal Cavaco Silva, à primeira volta, conseguiu 50,54%. Era na altura o único candidato da direita, beneficiando de uma esquerda fragmentada: Mário Soares era o candidato apoiado oficialmente pelo PS que, no entanto, tinha em Manuel Alegre outro nome forte do seu espaço político a concorrer como indepentente. Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã e Garcia Pereira, todos da esquerda, completavam o elenco.

Mas essa corrida de há 20 anos não era a primeira de Cavaco Silva. Em 1996, três meses depois de ter deixado o cargo de Primeiro-Ministro, Cavaco candidatou-se à presidência contra o socialista Jorge Sampaio. Essa eleição viria a ser discutida apenas pelos dois - algo também inédito, quase em jeito de segunda volta -, depois de Jerónimo de Sousa (PCP) e Alberto Cunha Matos (UDP), que foram candidatos e fizeram campanha, desistirem em favor de Sampaio. O candidato socialista conseguiu 53,91% dos votos, impondo assim a única derrota nas urnas a um Cavaco Silva que teria de esperar dez anos para se tornar o primeiro militante social-democrata do PSD a chegar à Presidência da República.

 

As prestações de Marcelo e as certezas da próxima vitória

Os resultados de Marcelo Rebelo de Sousa, nas duas vezes que foi às urnas, foram tudo menos inesperados. Em 2016, na primeira eleição, Sampaio da Nóvoa ainda conseguiu granjear algum entusiasmo em torno da sua candidatura, mas não foi além dos 22,88%, falhando o objetivo da segunda volta (Marcelo foi eleito com 52%).

Há cinco anos, a única verdadeira dúvida era mesmo quem reclamaria o segundo lugar - entre Ana Gomes e André Ventura. Sem o apoio do partido (que foi dado à reeleição de Marcelo), a socialista ficou à frente do líder do Chega. O Presidente renovou o mandato com 60,70%, a terceira maior marca da história.

Este ano, na eleição do próximo domingo é praticamente certo que se volte a fazer história: 40 anos depois, é mais do que provável que volte a haver segunda volta, depois de se assistir à mais magra vitória de sempre nas presidenciais.