Marcelo, o Presidente dos afetos: 10 anos a governar o tempo mediático
Há uma imagem que explica Marcelo Rebelo de Sousa melhor do que muitas biografias: a porta lateral de Belém, os diretos montados, o país a prender a respiração por causa de uma crise política e o Presidente a sair a pé, sem declarações, para ir ao… multibanco. Não é só o episódio em si, é o que ele representa. Em vez do ritual solene, um gesto quotidiano. Meses depois, a mesma coreografia repetia-se com outro adereço: um gelado na mão, humor na resposta e uma frase a pedir: “calma”. Em vez do formalismo institucional, a narrativa. E, no meio da espuma mediática, a mensagem silenciosa: a Presidência não é um pedestal: é uma rua onde se vive.
Essas cenas, meio espontâneas, meio performativas, resumem como Marcelo Rebelo de Sousa marcou a última década: um Presidente hiperpresente, com uma relação instintiva com a rua e com as câmaras e que transformou o “poder moderador” num exercício permanente de contacto, sinalização e gestão de expectativas.
Isto não é só excentricidade. É uma forma de ocupar espaço: quando o Presidente preenche o ecrã com um gesto inesperado, ele controla o ritmo do noticiário e, muitas vezes, evita ser engolido pelo guião dos outros. Há quem leia isso como populismo suave; há quem veja inteligência comunicacional. O certo é que nenhum Presidente, na democracia portuguesa, fez do quotidiano um instrumento tão constante de poder simbólico.
Marcelo toma posse do primeiro mandato a 9 de março de 2016 e terminará o segundo a 9 de março de 2026, com eleições presidenciais marcadas para 18 de janeiro. A dez anos de distância, o que fica menos não é uma lista de polémicas: é um estilo presidencial que foi diferente — e, em vários aspetos, inédito — face aos antecessores.
Uma década depois, há um caminho feito. Nesse caminho, Marcelo foi muitas coisas ao mesmo tempo: professor e entertainer, bombeiro e árbitro, cronista do regime e gestor de crises, mas, sobretudo, foi diferente. Não por ter quebrado o protocolo do cargo, mas por tê-lo misturado com outra coisa: proximidade, que muitos dizem ter sido exagerada. Seja como for, o ainda Presidente teve as mais altas taxas de popularidade.
Marcelo não aprendeu a lidar com a televisão em Belém: trouxe a televisão para Belém. O seu percurso como comentador moldou um Presidente que pensa em timing, enquadramentos e frases que entram no noticiário como se fossem inevitáveis. Daí as cenas do quotidiano como linguagem política: o multibanco após o chumbo do Orçamento, o gelado em Belém, os passeios enigmáticos. Não é folclore: é construção de narrativa. Marcelo percebeu como poucos que, na democracia mediática, o Presidente é também um editor do ambiente político.
Os afetos e as selfies: a Presidência como proximidade

Marcelo entrou em Belém com um corpo inteiro de gestos. Abraços, beijos, mãos nos ombros, conversas ao ouvido, selfies feitas com o telemóvel dos outros. A etiqueta ganhou um novo protagonista: o cidadão anónimo, que se aproximava para uma fotografia e saía com a sensação de ter sido visto.
Houve Presidentes respeitados, mas Marcelo quis ser, além disso, tocável. O seu poder simbólico foi o do abraço, do beijinho, do “como está?”, da fotografia pedida no meio da multidão.
O ponto não é a selfie em si: é o que ela representa. Marcelo tornou a Presidência um lugar de presença física, mais do que de distância institucional. Onde Cavaco Silva era (por natureza e estratégia) um Presidente mais reservado e distante, Marcelo preferiu um modelo de proximidade emocional, muitas vezes no terreno - sobretudo em momentos de dor coletiva - para “colar” o Estado às pessoas.
Talvez não tenha sido só espontaneidade. Foi método. Um método político num tempo em que as instituições pareciam distantes e num tempo complicado pós-troika em que a antipolítica se alimentava da ideia de “eles lá em cima”. Ao fazer do corpo um instrumento de Estado, Marcelo fez do Estado um corpo presente. Logo no primeiro ano de mandato, a imprensa - com admiração e crítica misturadas - batizou-o de “Presidente dos afetos”. A expressão tornou-se quase um género. E mesmo quando o rótulo “Presidente das selfies” surgia com ironia, a discussão acabava por reconhecer a intuição central: Marcelo sabia que comunicação é poder.
É uma marca que também se lê na linguagem: o Museu da Presidência regista o apelo a uma Presidência “de todos” e o lema do segundo mandato - “cada português conta” - coerentes com essa narrativa de atenção individual. Atenção individual que chegou a extremos. Todos nos lembramos quando o Chefe de Estado falou por telefone, em direto, com a apresentadora Cristina Ferreira, quando saiu da TVI e rumou à SIC. No dia de estreia do novo programa da apresentadora, Marcelo ligou-lhe a desejar-lhe as felicidades.
A pandemia, depois, expôs o paradoxo: o Presidente do toque num país proibido de tocar. O gesto teve de se disciplinar, o calor teve de passar para a palavra, o afeto teve de virar presença simbólica. E aí percebeu-se outra coisa: a marca não era só a selfie, era a insistência em estar. Nas tragédias, nas comemorações, nos funerais de Estado e nos funerais de aldeia, no grande e no pequeno.
A solidão: um Presidente sem “primeira-dama” e com um Palácio grande demais
A proximidade marcelista sempre teve um paradoxo: a vida institucional de Marcelo foi, em muitos momentos, solitária. Ao contrário de Ramalho Eanes, por exemplo, que viveu em Belém com a família, Marcelo fez o caminho inverso nos primeiros anos: teve obras para poder ficar no Palácio, mas usou pouco a residência, preferindo rotinas que não passam por “habitar” Belém como casa. Depois da pandemia, tudo mudou: Marcelo passa a residir em Belém e ficou ainda mais solitário: sozinho num palácio, acordado até altas horas e a dormir muito pouco.
E houve ainda um detalhe que, num cargo cheio de simbolismo, conta: Marcelo assumiu desde cedo que, numa República, a família não tem papel institucional, recusando a ideia de “primeira-dama” como figura protocolar.
O resultado foi uma Presidência em que a companhia foi muitas vezes substituída por outra coisa: agenda intensa, atenção mediática e relação direta com as pessoas. Como se o contacto constante fosse, também, uma forma de preencher o vazio que o cargo pode produzir.
A fé: a dimensão moral como bússola pública

Em Marcelo, a fé nunca foi um adereço discreto, é parte do vocabulário moral. A primeira viagem oficial ao estrangeiro, em 2016, foi ao Vaticano - um gesto carregado de simbolismo num Presidente assumidamente católico praticante.
Em Fátima, Marcelo verbalizou de forma cristalina aquilo que muitos presidentes vivem com recato: a coexistência entre crença pessoal e representação de todos. Disse que ali estava numa “dupla pele”, de católico e de Presidente. Esta frase explica como ele entende o cargo: não como neutralidade emocional, mas como conciliação de planos - o íntimo e o constitucional.
O seu percurso, as suas referências e a sua presença em momentos religiosos apontaram sempre para um Presidente que não trata a religião como assunto privado sem expressão pública, apesar de sermos um Estado laico.
Essa fé nunca foi escondida, antes pelo contrário. Nos encontros com o Papa Francisco, onde foi visível o entusiasmo num famoso aperto de mão ostensivo ou na forma como apoiou e comemorou a Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa, em 2023: “Esperávamos, desejávamos, conseguimos: vitória!”
O Presidente que mais viajou: diplomacia em permanência
Marcelo também foi o Presidente que transformou a diplomacia em itinerário — a política externa como soma de deslocações, encontros e fotografias, com uma energia quase inesgotável. Se há um “recorde Marcelo” que não depende de perceções, é este: as viagens. Em setembro de 2025, Marcelo somava 160 deslocações oficiais ao estrangeiro, mais do que o somatório de todos os Presidentes anteriores desde o 25 de Abril, e muito acima do segundo colocado nesse ranking.
Aqui, a diferença não é só numérica: é de filosofia. Marcelo usou a presença internacional como extensão do seu estilo - estar lá, ver, cumprimentar, falar, sinalizar. E fez isso tanto na diplomacia clássica (Europa, lusofonia, aliados), como em momentos em que a agenda externa se cruza com a política interna.
O que interessa, mais do que o número, é o efeito: reforço da ligação às comunidades portuguesas, aposta em “soft power” (Portugal como país de pontes, consensos, mar e diáspora) e a presença em momentos internacionais que pediam símbolo - e não apenas política pública.
Pelo meio, teve receções dignas de filme, como em Angola, em 2019. O presidente, qual estrela, empoleirou-se no carro, com uma mão na porta, e a outra a acenar aos milhares de pessoas que ali estavam para o ver e saudar. Foram duas horas.
Ou, em 2016, na deslocação oficial a Moçambique, durante a visita à Escola Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa foi recebido em ambiente de euforia e dançou ao lado das crianças.
A “bomba atómica”: dissolver o Parlamento como instrumento de estabilidade
No semipresidencialismo português, dissolver o Parlamento é o poder mais dramático do Presidente - o “botão vermelho” do sistema. E Marcelo carregou nele três vezes. Em 2021, o Orçamento do Estado não foi aprovado e o Presidente cumpriu o que prometeu: dissolveu a Assembleia da República e convocou eleições antecipadas para 30 de janeiro de 2022: neste mesmo ano, a seguir à demissão do então primeiro-ministro António Costa, Marcelo convocou as eleições para 10 de março; finalmente, em 2025, depois da moção de confiança do governo de Luís Montenegro ter sido rejeitada. As eleições foram a 18 de maio.
O aspeto decisivo é o enquadramento: Marcelo não fez da dissolução um capricho, mas também não a tratou como tabu. Usou-a como mecanismo para “desatar nós” quando entendeu que a governação ficava presa.
O Conselho de Estado: o palco institucional da decisão
Outro traço distintivo: a frequência com que convocou o Conselho de Estado. Em janeiro de 2025, convocava-o pela 37.ª vez, um número que o colocava já como o Chefe de Estado que mais reuniu este órgão consultivo do Presidente da República.
Na prática, Marcelo usou o Conselho de Estado como câmara de legitimação, por força da Constituição, antes de decisões pesadas, como as dissoluções, como termómetro político para interpretar a atualidade nacional, ler partidos, ex-presidentes, personalidades, e, ao mesmo tempo, um sinal para o país - de alguma forma, mostrar que a decisão não é solitária.
A importância dada por Marcelo ao Conselho de Estado é tanta que até convocou mais uma reunião, em final de mandato, para 9 de janeiro de 2026, para discutir temas internacionais (como a Ucrânia) em plena campanha presidencial, reforçando a ideia de que este órgão foi um instrumento regular - e não excecional - do seu modo de governar a Presidência, ainda que tenha sido criticado pelos candidatos presidenciais.
Costa e Montenegro: duas relações, dois tipos de Presidência
Marcelo atravessou governos e crises, mas duas relações com primeiros-ministros ajudam a ler a década. Com António Costa, Marcelo viveu uma relação de alto profissionalismo, chamou-lhe “otimista irritante”. mas também de tensão subterrânea. A previsibilidade do então primeiro-ministro criava uma dinâmica típica de “gestão de regime”: Marcelo pressionava, avisava, pedia explicações; Costa calculava, informava, encaixava.
Apesar do respeito e da cumplicidade entre os dois, a crise de 2023 em torno de João Galamba mostrou bem a fricção: Marcelo fez saber que queria uma saída; Costa não cedeu e o Presidente passou a falar ao país e a medir palavras em público com um grau de dureza invulgar.
Mas, paradoxalmente, essa mesma previsibilidade permitia a Marcelo jogar um xadrez conhecido: quando o adversário é estável, o árbitro consegue antecipar o jogo.
Com Luís Montenegro, o quadro foi diferente: maior proximidade partidária de origem, mas um contexto político mais nervoso e crises que levaram a novas eleições antecipadas. A relação, portanto, não foi “mais fácil” por ser mais alinhada: foi, em vários momentos, mais exigente.
O próprio Marcelo descreveu, em declarações públicas que ficaram a marcar o início deste ciclo, uma adaptação mais difícil: “não imaginam como é difícil eu adaptar-me a um novo primeiro-ministro”. Montenegro "não é lisboeta nem portuense, é uma pessoa que vem de um país profundo, urbano-rural, urbano com comportamentos rurais”. Frase que caiu mal no seio do Governo.
E aqui está a mudança essencial: com Montenegro, Marcelo assume que “todos os dias tenho surpresas”; com Costa, dizia, “era ao contrário”. Na prática, Marcelo apresenta Montenegro como alguém que dá mais trabalho ao Presidente e, ao mesmo tempo, o estimula.
O resultado é uma relação diferente: menos “engenharia” e mais “interpretação”; menos rotina e mais vigilância política. E isso ajuda a perceber por que motivo, em 2025, o país voltou a eleições antecipadas após a queda do Governo na sequência do chumbo de uma moção de confiança.
Os incêndios de 2017

Há um antes e um depois de 2017 na presidência de Marcelo Rebelo de Sousa - e não apenas no país. Se a “marca Marcelo” já vinha desenhada a afetos, proximidade e omnipresença, foi nos incêndios de Pedrógão Grande, em junho, e na vaga devastadora de outubro, que essa gramática emocional se tornou, ao mesmo tempo, instrumento político, símbolo mediático e bússola moral.
O incêndio de Pedrógão Grande começou a 17 de junho e tornou-se a tragédia mais mortífera associada a fogos em Portugal: 64 mortos e mais de 200 feridos. Nesses dias, Marcelo fez aquilo que quase ninguém esperava de um Presidente “institucional”: apareceu fisicamente no epicentro - e não como visita protocolar de meia hora, mas como presença insistente, quase permanente, que se confunde com o luto.
A Rádio Renascença registou um detalhe que diz muito sobre o instinto do cargo - e sobre o instinto do homem: Marcelo chega a Pedrógão Grande de madrugada, “uma da manhã”, num país ainda a contar mortos e a tentar perceber o que se passava. E vai abraçar, ali, quem acabara de dar a cara no meio do caos. A seguir, fala ao país a partir de Belém, em declaração formal sobre a tragédia. Mas a formalidade já vinha contaminada por uma coisa rara na liturgia presidencial: a emoção visível e a ideia de que o Presidente não está acima da dor, está dentro dela.
Marcelo esteve com famílias, bombeiros, autarcas, voluntários; ouviu relatos, tocou mãos, abraçou gente que chorava. E esse gesto repetido (o abraço) deixou de ser apenas estilo para se tornar narrativa: a do Presidente que “vai lá”, que encurta distâncias, que transforma o cargo num corpo presente. Em outubro, quando o país volta a arder, com os fogos de 14 a 16 a atingirem de novo o Centro e o Norte, essa mesma gramática regressa, agora com um país ainda mais exausto. O balanço final chegaria às 50 vítimas mortais.
É neste segundo momento que surge uma das imagens mais fortes (e mais discutidas) do seu mandato: a fotografia publicada pela Lusa a 19 de outubro de 2017, em Santa Comba Dão, que mostra Marcelo dentro de um carro, inclinado para junto de Manuel, agricultor inconsolável - um abraço contido, quase um “encosto” de presença, como se o Estado, por instantes, coubesse naquela cabine. Essa fotografia, intitulada “O nosso presidente Marcelo”, viria a ser distinguida com o Prémio Rei de Espanha de Jornalismo. A imagem correu mundo e chegou a ser destacada pela revista Time, amplificando internacionalmente a leitura de um Presidente “humano” no meio de uma calamidade.
Mas reduzir o papel de Marcelo em 2017 à iconografia dos afetos seria perder metade da história. A outra metade é política e é aí que a presidência dele se afasta da mera crónica sentimental para entrar na pressão institucional. Em outubro, o Presidente volta a falar ao país e não poupou críticas: “o Governo deve retirar todas, mas todas, as consequências” e pediu ao Parlamento que diga “se quer ou não manter o Governo”. Na sequência do discurso brutal de Marcelo, em que exigiu a abertura de “um novo ciclo e quem melhor serve esse ciclo”, a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, apresentou a demissão. Meses depois dos incêndios, Marcelo vai ao terreno e diz, perante a comunidade e perante o Governo, que o país “aguarda com legítima expectativa” as consequências que o Executivo vai retirar daquela tragédia e avisa: “já perdemos tempo demais”.
Se os afetos e as selfies foram o lado solar da sua popularidade, 2017 mostrou o lado sombrio - e talvez o mais definidor - da sua maneira de ocupar Belém: a convicção de que, em certos momentos, a solidão do cargo se mede pela obrigação de estar onde dói, dizer o que custa e insistir quando todos preferem seguir em frente.
