Braille é a realidade de mais de 25 mil portugueses e a tecnologia não pode ocupar o lugar: “Ouvir não é ler”

Em Portugal, estima-se que existam mais de 25 mil cegos e centenas de milhares de cidadãos com deficiência visual. Apesar dos avanços tecnológicos, o braille continua a ser indispensável para a literacia das pessoas cegas. No Dia Mundial do Braille, assinalado este domingo, a ACAPO reitera a importância do sistema de linguagem mesmo com o avanço de todas as tecnologias.
 
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
04 jan. 2026, 07:00

Sala de aula da ACAPO no Porto
Fotografia: A ACAPO no Porto apoia vários cegos a vários níveis e ensina profesorres do Grupo 930 (ACAPO)

É do conhecimento de todos que mais do que nunca vivemos num tempo em que as tecnologias avançam com grande rapidez e que estão em constante mudança. Tal como aconteceu em diversas áreas, as várias formas de linguagem também foram instrumentalizadas e adaptadas à boleia destas inovações. Algumas desapareceram. Não é, contudo, o caso do braille.

O braille tem mais de 200 anos e continua a ser relevante aos dias de hoje. As tecnologias adaptaram-no mas não podem substituí-lo, alertou João Fernandes, presidente da ACAPO no Porto, que esteve em declarações ao Conta Lá.

“O Braille é a única forma de leitura escrita e efetiva que os cegos têm. Não há outra. Não é a mesma coisa ler Braille ou estar a ouvir conteúdos, seja de livro, seja de revista, seja o que for. Ouvir e ler é uma coisa e ler mesmo é outra”, explica João Fernandes.

Em Portugal, as estimativas variam consoante as fontes e os critérios utilizados. A Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) aponta para 25 mil a 28 mil pessoas cegas, enquanto o número total de cidadãos com deficiência visual, incluindo os de baixa visão, poderá situar-se entre 160 mil e 620 mil. Os Censos 2021 indicam que mais de 350 mil portugueses referem incapacidade de ver.

Celebra-se este domingo, 4 de janeiro, o Dia Mundial do Braille, data que ganhou especial significado em 2025, ano em que se assinalaram 200 anos da invenção do sistema braille, criado em 1825 por Louis Braille. 

Dois séculos depois, continua a ser a única forma de leitura e escrita efetiva para pessoas cegas, num país onde os números da deficiência visual permanecem elevados.

Tecnologia não substitui o braille

Contrariando a ideia de que os computadores e os leitores de ecrã tornaram o braille obsoleto, a ACAPO defende que a tecnologia veio potenciar a sua utilização, mas não a sua extinção. Existem hoje linhas braille, impressoras e máquinas adaptadas, embora muitas sejam pesadas e pouco práticas para crianças.

João Fernandes recorda até uma declaração polémica de um antigo ministro da Ciência e Tecnologia, na altura que se celebrava um acordo para a produção de sintetizadores de voz, acreditando que a tecnologia de áudio iria "libertar" os cegos da necessidade de ler em Braille, que classificou como "penoso".

“Houve uma vez um ministro que dizia que agora, com os leitores de ecrã, os cegos podiam deixar as penosas linhas braille. Depois alguém teve que explicar que as linhas braille não eram penosas, eram necessárias, porque quem não lê não sabe escrever, ou escreve com erros ortográficos.”

A distinção é clara, segundo o presidente da ACAPO: ouvir conteúdos não permite o acesso à ortografia, à estrutura da língua e à verdadeira literacia. “Ouvir não é ler”, declara João Fernandes.

Literacia, autonomia e inclusão

A ACAPO tem várias sedes de norte a sul do país e desenvolve o seu trabalho em três áreas fundamentais: leitura e escrita em braille, adaptação às novas tecnologias e orientação e mobilidade. 

Na delegação do Porto, a associação apoia crianças em idade pré-escolar e escolar, bem como pessoas que cegaram tardiamente, por acidente ou doença, e que precisam de reaprender a ler e escrever.

“Apoiamos pessoas que cegaram tardiamente e que na sua reabilitação necessitam também de aprender Braille. Temos apoio a crianças em idade pré-escolar e em idade escolar que também aprendem Braille”, explicou João Fernandes.

A associação tem ainda um papel crucial na formação de docentes, nomeadamente de professores do Grupo de Recrutamento 930, área específica da Educação Especial dedicada ao apoio a alunos com cegueira ou baixa visão.

Um dos problemas apontados por João Fernandes prende-se com a escassez de horas dedicadas ao braille nos cursos de especialização em Educação Especial.

“Muitas especializações não têm horas suficientes nos módulos ligados ao Braille e o que se nota é que muitos vêm depois para cá para aprenderem aquilo que se calhar deveriam ter aprendido nas especializações.”

O responsável sublinha que o domínio do braille é tão essencial como a língua gestual para quem trabalha com alunos surdos. “Alguém para ser professor e para dar apoio a uma criança ou a um jovem cego forçosamente tem que saber Braille.”

Burocracia atrasa a inclusão

Apesar de muitos produtos de apoio serem financiados a 100% pelo Estado, o problema está nos tempos de resposta. “O que acontece é que demora meses, isto demora muito tempo mesmo. A burocracia pode comprometer pela demora muito tempo”, justificou João Fernandes.

Quer se trate de equipamentos para trabalho, formação profissional ou vida privada, os processos passam pela Segurança Social ou pelos centros de emprego, atrasando a autonomia de quem deles precisa.

Ainda assim, o presidente da ACAPO no Porto congratula que estes equipamentos são totalmente financiados.