Como as plantas da serra da Gardunha podem gerar novos negócios

Investigadores da Universidade da Beira Interior, em parceria com a Câmara do Fundão, estudaram as propriedades terapêuticas de plantas silvestres e utilizaram tecnologia para potenciarem a sua comercialização e aproveitamento turístico
 
Ana Ribeiro Rodrigues
Ana Ribeiro Rodrigues Editora-executiva
09 jan. 2026, 17:38

telemóvel está apontado a uma planta
Fotografia: Aplicação indica quando planta endémica asphodelus bento-rainhae está florida

Cerca de uma dezena de plantas silvestres ou endógenas da Serra da Gardunha foram estudadas para que as suas caraterísticas medicinais, de bem-estar ou aromáticas possam ser aproveitadas e dar origem a negócios que valorizem este recurso e que potenciem o turismo de natureza no Fundão.

O projeto Montanha Viva, liderado pela Universidade da Beira Interior (UBI), localizada na Covilhã, recorreu a algoritmos de inteligência artificial e a tecnologia que facilita a monitorização em tempo real do estado vegetativo de cada planta e da envolvente, permitindo a que visitantes, utilizando a aplicação para o efeito possam, de forma autónoma, encontrar e saber toda a informação disponível sobre determinada planta.

“O estudo foi feito na serra da Gardunha, mas é escalável para outras zonas de montanha”, frisou, em declarações ao Conta Lá, Pedro Dinis, coordenador do projeto.

Segundo o investigador da UBI, “foram identificadas caraterísticas de aplicação medicial em plantas que, até agora, se desconhecia”.

A academia espera agora que o município do Fundão, parceiro do projeto, articule e crie as condições para que esta dimensão seja explorada, através da criação de novos negócios, seja para fins de saúde, culinários, turísticos ou outros.

Na serra da Gardunha, o Montanha Viva incidiu em plantas como a estrevinha, o sargacinho, saramago-de-bico-recurvo, raspa-língua, manjericão selvagem, bacelos e perpétuas, estas três últimas com uma multiplicidade de utilizações possíveis.

“Se há plantas que têm aplicações e não são apenas ervas daninhas, podemos criar negócios a partir delas e promover atividades que as envolvam, incentivando a economia circular”, salienta Pedro Dinis.

Em paralelo ao estudo nas plantas nos laboratórios da UBI, foi desenvolvida tecnologia, com a criação de estações de monitorização autónomas em termos energéticos que têm acopladas câmaras e que trasnmitem dados que permitem alimentar algoritmos que prestam informação .

“Conseguimos detetar em tempo real qual o estado vegetativo da planta, se está a crescer, se os nutrientes são os adequados ao crescimento, quais são as condições em que se encontra”, pormenoriza o coordenador.

O projeto teve também em conta as dificuldades nas comunicações móveis em muitas destas zonas e outro objetivo foi, nestas zonas montanhosas, “implementar, testar, desenvolver novas soluções que pudessem aportar um benefício para a comunicação sem fios”, acrescenta pedro Dinis.

Umas das plantas a valorizar é a asphodelus-bento-rainhae, planta protegida, endémica da serra da Gardunha. Neste caso, não foram avaliadas as suas propriedades microbiológicas. A intenção é dinamizar os percursos pedestres já existentes, incentivar o turismo de natureza e sensibilizar para a biodiversidade local.

“No caso da asphodelus foi explorada a vertente de aplicação turística, porque é uma coisa única. É dada a indicação de quando esta planta está florida, onde se pode encontrar, quais os locais mais adequados e, em função do estado vegetativo, o percurso é automaticamente atualizado”, realça o coordeandor do Montanha Viva.

Segundo Pedro Dinis, “o que se pretende não é que o turista arranque a planta, é que vá aos locais que são indicados para observar as plantas ou fazer a compra de produtos à base dessas plantas”.

O responsável sublinha que os negócios a desenvolver tem de ser a Câmara do Fundão a explorar, mas, além da saúde e bem-estar, vislumbra várias outras possíveis atividades em que a aplicação pode ser útil e criar valor.

Pedro Dinis vinca que as estações monitorizam também a envolvente das plantas, e que isso pode dar indicação de onde existem pastos para rebanhos, podem fazer a gestão de espaços florestais e indicar quando o mato deve ser cortado, por exemplo para ser vendido para centrais de biomassa e, em simultâneo, “mitigar ou reduzir o potencial de risco de incêndios florestais”.