Como as plantas da serra da Gardunha podem gerar novos negócios
Cerca de uma dezena de plantas silvestres ou endógenas da Serra da Gardunha foram estudadas para que as suas caraterísticas medicinais, de bem-estar ou aromáticas possam ser aproveitadas e dar origem a negócios que valorizem este recurso e que potenciem o turismo de natureza no Fundão.
O projeto Montanha Viva, liderado pela Universidade da Beira Interior (UBI), localizada na Covilhã, recorreu a algoritmos de inteligência artificial e a tecnologia que facilita a monitorização em tempo real do estado vegetativo de cada planta e da envolvente, permitindo a que visitantes, utilizando a aplicação para o efeito possam, de forma autónoma, encontrar e saber toda a informação disponível sobre determinada planta.
“O estudo foi feito na serra da Gardunha, mas é escalável para outras zonas de montanha”, frisou, em declarações ao Conta Lá, Pedro Dinis, coordenador do projeto.
Segundo o investigador da UBI, “foram identificadas caraterísticas de aplicação medicial em plantas que, até agora, se desconhecia”.
A academia espera agora que o município do Fundão, parceiro do projeto, articule e crie as condições para que esta dimensão seja explorada, através da criação de novos negócios, seja para fins de saúde, culinários, turísticos ou outros.
Na serra da Gardunha, o Montanha Viva incidiu em plantas como a estrevinha, o sargacinho, saramago-de-bico-recurvo, raspa-língua, manjericão selvagem, bacelos e perpétuas, estas três últimas com uma multiplicidade de utilizações possíveis.
“Se há plantas que têm aplicações e não são apenas ervas daninhas, podemos criar negócios a partir delas e promover atividades que as envolvam, incentivando a economia circular”, salienta Pedro Dinis.
Em paralelo ao estudo nas plantas nos laboratórios da UBI, foi desenvolvida tecnologia, com a criação de estações de monitorização autónomas em termos energéticos que têm acopladas câmaras e que trasnmitem dados que permitem alimentar algoritmos que prestam informação .
“Conseguimos detetar em tempo real qual o estado vegetativo da planta, se está a crescer, se os nutrientes são os adequados ao crescimento, quais são as condições em que se encontra”, pormenoriza o coordenador.
O projeto teve também em conta as dificuldades nas comunicações móveis em muitas destas zonas e outro objetivo foi, nestas zonas montanhosas, “implementar, testar, desenvolver novas soluções que pudessem aportar um benefício para a comunicação sem fios”, acrescenta pedro Dinis.
Umas das plantas a valorizar é a asphodelus-bento-rainhae, planta protegida, endémica da serra da Gardunha. Neste caso, não foram avaliadas as suas propriedades microbiológicas. A intenção é dinamizar os percursos pedestres já existentes, incentivar o turismo de natureza e sensibilizar para a biodiversidade local.
“No caso da asphodelus foi explorada a vertente de aplicação turística, porque é uma coisa única. É dada a indicação de quando esta planta está florida, onde se pode encontrar, quais os locais mais adequados e, em função do estado vegetativo, o percurso é automaticamente atualizado”, realça o coordeandor do Montanha Viva.
Segundo Pedro Dinis, “o que se pretende não é que o turista arranque a planta, é que vá aos locais que são indicados para observar as plantas ou fazer a compra de produtos à base dessas plantas”.
O responsável sublinha que os negócios a desenvolver tem de ser a Câmara do Fundão a explorar, mas, além da saúde e bem-estar, vislumbra várias outras possíveis atividades em que a aplicação pode ser útil e criar valor.
Pedro Dinis vinca que as estações monitorizam também a envolvente das plantas, e que isso pode dar indicação de onde existem pastos para rebanhos, podem fazer a gestão de espaços florestais e indicar quando o mato deve ser cortado, por exemplo para ser vendido para centrais de biomassa e, em simultâneo, “mitigar ou reduzir o potencial de risco de incêndios florestais”.