Alentejo é agora a região mais pobre do país

Portugal está hoje menos desigual em termos de pobreza, mas o mapa mudou. Os Açores deixaram de liderar a lista das regiões mais pobres e o Alentejo surge agora no topo, numa tendência que ainda não tem explicação fechada. Apesar da queda global da pobreza, quase 300 mil crianças continuam a viver em risco.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
13 jan. 2026, 07:00

Paisagem do Alentejo

A pobreza em Portugal caiu para o valor mais baixo desde o início dos anos 90, mas os dados mostram que, pela primeira vez em décadas, o Alentejo passou a ser a região mais pobre do país, ultrapassando os Açores, que nos últimos anos se manteve no topo da lista. As causas podem ser diversas e ainda vão ser estudadas, mas há fatores que já podem levar os executivos a agir.

A pobreza em Portugal caiu para o valor mais baixo desde o início dos anos 90, mas continua a afetar cerca de 1,7 milhões de pessoas e a atingir de forma particularmente dura as crianças. O estudo recente "Portugal Desigual", da Fundação Francisco Manuel dos Santos, do investigador Carlos Farinha Rodrigues, analisa os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgados em dezembro.

Em entrevista ao Conta Lá, o investigador refere que, em 2024, foram cerca de 100 mil as pessoas que saíram da situação de pobreza, um resultado que classifica como “extremamente positivo”. Ainda assim, deixa um aviso: “A pobreza continua a ser um problema importante na realidade social portuguesa e um motivo de extrema preocupação”.

Uma das mudanças mais relevantes surge no plano regional. Pela primeira vez desde que há dados comparáveis, os Açores deixaram de estar entre as regiões com maior taxa de pobreza, depois de uma descida inédita de quase sete pontos percentuais. 

Ao mesmo tempo, algumas regiões do interior, como o Alentejo, registaram um agravamento do indicador, num movimento que o investigador diz ainda não ser possível explicar em detalhe.

“Ainda não sabemos se este agravamento é conjuntural ou estrutural”, sublinha Carlos Farinha Rodrigues, explicando que só com os microdados do INE, que deverão ser disponibilizados no final do verão, será possível perceber o que aconteceu “família a família, caso a caso”.

Apesar disso, há uma tendência geral que considera positiva: a redução das desigualdades territoriais. “A distância que separa a região mais pobre da região mais rica diminuiu significativamente, o que é bom do ponto de vista da coesão social”, afirma.

Se os dados são encorajadores a nível geral, o mesmo não se pode dizer quando o foco recai sobre as crianças. A taxa de pobreza infantil praticamente não mudou, com uma redução de apenas 0,2%, deixando 17,6% das crianças em risco de pobreza. “Estamos a falar de cerca de 300 mil crianças em situação de pobreza, o que é extremamente preocupante”, alerta o investigador.

O problema é particularmente grave nas famílias monoparentais, que representam apenas uma pequena fatia da população pobre, mas concentram cerca de um quarto das crianças em situação de pobreza. “Se não conseguirmos reduzir a pobreza das crianças, não conseguimos quebrar a transmissão intergeracional da pobreza”, avisa.

Carlos Farinha Rodrigues defende que há medidas que podem ser tomadas desde já, sem esperar por novos estudos, uma vez que estes levam tempo. 

A principal passa por uma mudança de prioridades. “O combate à pobreza aparece muitas vezes subalternizado nas políticas públicas”, critica. Para o investigador, trata-se não apenas de uma questão de justiça social, mas também de desenvolvimento: “A pobreza é um travão ao crescimento sustentável do país”.

Também a instabilidade política dos últimos anos pode ter causado este cenário, pois “algumas medidas que já estavam em implementação puderam ter alguma menor rapidez de implementação em função disso”.

“Um exemplo típico é, claramente, a implementação da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza foi afetada, em termos da sua capacidade de transformação, por estas oscilações no ciclo político. Nós temos várias medidas específicas, por exemplo, na garantia para a infância e, que de alguma forma, eventualmente poderiam ter sido mais robustas se não tivesse havido essa convulsão política”, disse.

Imigrantes excluídos das estatísticas

Na entrevista, o investigador chama ainda a atenção para uma realidade pouco visível nos números oficiais: a situação dos imigrantes, uma vez que muitos não entram nas estatísticas porque não têm residência estável.

“Não só estão socialmente excluídos, como também estão estatisticamente excluídos”, afirma, defendendo uma maior preocupação com a sua integração no mercado de trabalho e nos sistemas de proteção social.