Casa Museu Fernando de Castro é tesouro oculto do Romantismo tardio no Porto

A Casa Museu Fernando de Castro esconde um notável acervo de arte e talha dourada que reflete o espírito colecionista e irónico de Fernando de Castro. Integrada no Museu Nacional Soares dos Reis, preserva uma das mais singulares expressões do Romantismo na cidade do Porto.
Sofia Dias Olmedo
Sofia Dias Olmedo Jornalista
22 fev. 2026, 09:00

Na movimentada Rua de Costa Cabral, no Porto, existe um dos segredos mais fascinantes do património cultural da cidade: a Casa Museu Fernando de Castro, um exemplar do Romantismo tardio, preservado no ambiente urbano contemporâneo. À primeira vista, as fachadas brancas discretas do número 716 dissimulam o verdadeiro tesouro artístico que se esconde no interior.

Construída entre 1893 e 1908 como residência de uma família burguesa, a casa foi inicialmente idealizada por Fernando António de Castro, empresário oriundo da Covilhã, com fortuna feita no ramo dos vidros e dos espelhos, e sua mulher. Com a morte do casal, os filhos Fernando de Castro e Maria da Luz de Araújo Castro herdaram a casa que acabou por se transformar num autêntico museu. 

Fernando de Castro “júnior” era um homem de múltiplas facetas: empresário, poeta, caricaturista e, acima de tudo, colecionador apaixonado. Ao longo da sua vida, reuniu uma vasta coleção de pintura, escultura, arte sacra e objetos decorativos, preenchendo cada recanto da casa com peças de grande valor estético e histórico.

Ao entrar neste lugar, o visitante é imediatamente envolvido por uma atmosfera revivalista e exuberante, onde a talha dourada dominada pelo estilo barroco e a arte sacra se salientam. A decoração interior, com painéis de madeira trabalhados, tetos de caixotão, espelhos, mobiliário e candeeiros ornamentados, transporta-nos para o espírito estético do final do século XIX e início do XX, num ambiente de verdadeira profusão decorativa.

Apesar da aparente rigidez dos estilos clássicos, a Casa Museu reflete também a veia pessoal e irónica de Fernando de Castro. Entre esculturas e pinturas naturalistas portuguesas, sobressaem as caricaturas da autoria do próprio colecionador, desenhos humorísticos inspirados tanto pela sociedade portuense como pelas localidades portuguesas, mostrando a leveza e a vivacidade de um homem profundamente ligado à cultura e ao imaginário popular. “Nas caricaturas, vê-se, por exemplo, personalidades como Abel Salazar, Fortunato de Almeida e músicos que convidava para tocar e cantar em sua casa”, explica Ana Mântua, a coordenadora da Casa Museu Fernando de Castro.

“Não sabemos nada sobre ele no que diz respeito a formação, habilitações. Sabemos que falava muito bem francês e que fazia essa parte internacional do negócio do pai, que herdou” - explica Ana Mântua. E completa: “O que ele gostava mesmo de fazer era de desenhar, ilustrar, escrever poesia. Chegou a publicar cinco livros de poesia e um de prosa, frequentava os clubes e os salões artísticos e chegou a expor como caricaturista numa grande exposição em 1935, no Salão Silva Porto. Era um homem completamente engajado na sociedade do Porto da época.”

“À primeira vista, pela decoração da casa, achamos que ele era um homem sombrio, muito religioso. Mas não. Até a própria decoração, por muito pesada que seja, tem um lado irónico porque nem tudo bate certo. O púlpito do último andar, por exemplo, é uma ironia porque é colocado num local onde não há acesso. É só para inglês ver.”

Depois da sua morte, a casa e todo o seu conteúdo foram doados ao Estado pela irmã, Maria da Luz, cumprindo o desejo de transformar a residência familiar num museu público. Em 1951, por decreto, a Casa-Museu passou a integrar o Museu Nacional Soares dos Reis, garantindo assim a preservação desta coleção singular e abrindo-a, mediante marcação, à visita de todos aqueles que desejam descobrir uma das mais íntimas e surpreendentes expressões do colecionismo e do Romantismo tardio na cidade. Segundo a coordenadora, “além dos turistas estrangeiros, a esta casa vêm muitos portugueses, sobretudo pessoas do Porto que ficam espantadas por não terem conhecimento disto antes”.