A Mascarinha e o Mascarão estiveram 50 anos esquecidos. Agora atraem cada vez mais gente

Em Trás-os-Montes são várias as festas tradicionais de inverno até ao entrudo. Algumas das celebrações estiveram perdidas durante anos, mas foram recuperadas e atraem cada vez mais turistas. É o caso da Mascarinha e do Mascarão, em Vilarinho dos Galegos, Mogadouro.
Joana Amarante
Joana Amarante Jornalista
10 jan. 2026, 08:00

Duas pessoas mascaradas em festa tradicional transmontana. Ao fundo uma fogueira.
Fotografia: Facebook: "Mascarinha e Mascarão"

A terra fria transmontana ganha mais vida com a recuperação de tradições que, durante anos, ficaram esquecidas no tempo. As condições meteorológicas rigorosas não têm impedido que a comunidade e os turistas celebrem, na rua, rituais com décadas de história.  

É o caso da Mascarinha e do Mascarão, uma das celebrações do solstício que esteve ausente durante 50 anos, mas foi recuperada. Celebra-se este sábado, em Vilarinho dos Galegos, uma aldeia com menos de 200 habitantes no concelho de Mogadouro.

“É uma tradição muito antiga e que aqui na aldeia esteve inativa durante cerca de 50 anos, tendo sido reavivada pelo anterior presidente de Junta. Temos tentado manter a tradição e fazer sempre o desfile que é típico do dia de reis, mas que este ano será sábado dia 10”, explica o presidente da Junta, Ricardo Garcia, em entrevista ao Conta Lá.

Dois jovens rapazes saem à rua mascarados, um de Mascarão, uma figura masculina com uma espada afiada, outro de Mascarinha, a figura feminina que leva o rosto tapado com renda. 

“Eles fazem o peditório para o menino, num cortejo à volta da aldeia, com um grupo de pessoas a cantar os reis. Paramos em todas as casas que nos abrem a porta e entram só as figuras”, refere o responsável.

A acompanhar, há também sempre um grupo de jovens com bexigas de porco, previamente cheias e semi-secas, que atacam o mascarão. O desfile só acaba quando “ele rebenta todas as bexigas com a sua espada”, sublinha Ricardo Garcia.

A população vai respondendo ao peditório com “frutos secos, caixas de chocolates, enchidos, garrafas de vinho, de champanhe, vinho do porto, bolos”, ofertas que no final são todas leiloadas.

Décadas esquecida, a festa foi recuperada e agora chama cada vez mais gente de fora da aldeia: “Este ano já tivemos vários telefonemas para tentar arranjar aqui alojamentos locais onde as pessoas pudessem ficar”, conta o presidente da junta. 

O inverno em Trás-os-Montes é marcado por muitos rituais tradicionais, que se começam a festejar em outubro e que se prolongam até ao entrudo.  “O inverno é o período mais forte das festas”, admite António Tiza, presidente da Academia Ibérica da Máscara.

O nordeste transmontano é onde as festividades de inverno têm uma presença mais forte. Contudo, as celebrações do entrudo estão um pouco por toda a região, como, por exemplo, em Montalegre e Vila Real.

“São cerca de 30 festas, desde 31 de outubro com a festa da Cabra e do Canhoto até à quarta-feira de cinzas, dia a seguir ao entrudo, que marca o fim do ciclo festivo do inverno”, vinca António Tiza.

Muitas celebrações foram perdidas nos anos 60. O despovoamento explica, em grande parte, este desaparecimento: “A desertificação, a falta de gente, sobretudo de jovens”, explica o responsável. 

Para remediar a situação, o presidente da associação refere que “certas festas, que eram só de rapazes jovens, neste momento já abriram a participação a homens adultos, casados e a mulheres também”.

Há, no entanto, comemorações que foram recuperadas logo depois do 25 de Abril e que hoje, “cada vez têm mais gente, é um fenómeno exponencial". "Quanto mais vêm, mais querem vir no ano seguinte”, diz António Tiza, otimista. 

Também os mais novos começam a revelar-se mais interessados: “Há crianças que vão participando, não a 100%, mas aparecem porque os seus pais ou alguém os decidiu vestir". "Isto já é uma motivação. Para que quando chegam à idade, normalmente 15, 16 anos, já possam participar de pleno direito e a 100%”, acrescenta.