A Mascarinha e o Mascarão estiveram 50 anos esquecidos. Agora atraem cada vez mais gente
A terra fria transmontana ganha mais vida com a recuperação de tradições que, durante anos, ficaram esquecidas no tempo. As condições meteorológicas rigorosas não têm impedido que a comunidade e os turistas celebrem, na rua, rituais com décadas de história.
É o caso da Mascarinha e do Mascarão, uma das celebrações do solstício que esteve ausente durante 50 anos, mas foi recuperada. Celebra-se este sábado, em Vilarinho dos Galegos, uma aldeia com menos de 200 habitantes no concelho de Mogadouro.
“É uma tradição muito antiga e que aqui na aldeia esteve inativa durante cerca de 50 anos, tendo sido reavivada pelo anterior presidente de Junta. Temos tentado manter a tradição e fazer sempre o desfile que é típico do dia de reis, mas que este ano será sábado dia 10”, explica o presidente da Junta, Ricardo Garcia, em entrevista ao Conta Lá.
Dois jovens rapazes saem à rua mascarados, um de Mascarão, uma figura masculina com uma espada afiada, outro de Mascarinha, a figura feminina que leva o rosto tapado com renda.
“Eles fazem o peditório para o menino, num cortejo à volta da aldeia, com um grupo de pessoas a cantar os reis. Paramos em todas as casas que nos abrem a porta e entram só as figuras”, refere o responsável.
A acompanhar, há também sempre um grupo de jovens com bexigas de porco, previamente cheias e semi-secas, que atacam o mascarão. O desfile só acaba quando “ele rebenta todas as bexigas com a sua espada”, sublinha Ricardo Garcia.
A população vai respondendo ao peditório com “frutos secos, caixas de chocolates, enchidos, garrafas de vinho, de champanhe, vinho do porto, bolos”, ofertas que no final são todas leiloadas.
Décadas esquecida, a festa foi recuperada e agora chama cada vez mais gente de fora da aldeia: “Este ano já tivemos vários telefonemas para tentar arranjar aqui alojamentos locais onde as pessoas pudessem ficar”, conta o presidente da junta.
O inverno em Trás-os-Montes é marcado por muitos rituais tradicionais, que se começam a festejar em outubro e que se prolongam até ao entrudo. “O inverno é o período mais forte das festas”, admite António Tiza, presidente da Academia Ibérica da Máscara.
O nordeste transmontano é onde as festividades de inverno têm uma presença mais forte. Contudo, as celebrações do entrudo estão um pouco por toda a região, como, por exemplo, em Montalegre e Vila Real.
“São cerca de 30 festas, desde 31 de outubro com a festa da Cabra e do Canhoto até à quarta-feira de cinzas, dia a seguir ao entrudo, que marca o fim do ciclo festivo do inverno”, vinca António Tiza.
Muitas celebrações foram perdidas nos anos 60. O despovoamento explica, em grande parte, este desaparecimento: “A desertificação, a falta de gente, sobretudo de jovens”, explica o responsável.
Para remediar a situação, o presidente da associação refere que “certas festas, que eram só de rapazes jovens, neste momento já abriram a participação a homens adultos, casados e a mulheres também”.
Há, no entanto, comemorações que foram recuperadas logo depois do 25 de Abril e que hoje, “cada vez têm mais gente, é um fenómeno exponencial". "Quanto mais vêm, mais querem vir no ano seguinte”, diz António Tiza, otimista.
Também os mais novos começam a revelar-se mais interessados: “Há crianças que vão participando, não a 100%, mas aparecem porque os seus pais ou alguém os decidiu vestir". "Isto já é uma motivação. Para que quando chegam à idade, normalmente 15, 16 anos, já possam participar de pleno direito e a 100%”, acrescenta.