Prejuízos de mil milhões de euros na agricultura: "Destruição poderá levar agricultores a desistir"

As recentes tempestades provocaram prejuízos significativos na agricultura portuguesa. O Conta Lá ouviu algumas associações do setor para avaliar o impacto económico e as dificuldades enfrentadas pelos produtores.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
23 fev. 2026, 08:00

As tempestades que atingiram Portugal nas últimas semanas deixaram um rasto de destruição que vai muito além das imagens de cheias e árvores caídas. Nos campos agrícolas, o impacto traduz-se em culturas perdidas, infraestruturas destruídas, campanhas comprometidas e uma crescente pressão financeira sobre milhares de produtores. Entre o Vale do Mondego, o Alentejo, o Vale do Tejo e o Algarve, o cenário é desigual, mas o denominador comum é o prejuízo económico.

A dimensão nacional é sublinhada pela Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP). Luís Mira, secretário-geral da associação, estima que “os prejuízos deverão ascender a um valor entre 700 milhões e 1000 milhões de euros (agricultura, floresta e infraestruturas). Com a ressalva que a contabilização completa neste momento é impossível de se fazer, dado que existem muitos terrenos alagados que não permitem contabilizar objetivamente os estragos ocorridos”, rematou em entrevista ao Conta Lá.

Entre os setores mais vulneráveis, a CAP identifica danos extensos nas florestas - com sobreiros, azinheiras, pinheiros bravo, pinheiros manso e eucaliptos partidos ou arrancados - e destruição de infraestruturas como rede viária florestal, armazéns, muros, cercas e equipamentos, além de prejuízos em apiários. No setor agrícola, as culturas permanentes e temporárias foram igualmente afetadas. Segundo Luís Mira, registou-se destruição de fruteiras diversas incluindo pequenos frutos, olivais e vinhas pela ação do vento, alagamento de áreas com risco de asfixia radicular, destruição de pastagens, forragens, hortícolas de ar livre e searas instaladas de cereais praganosos, bem como danos estruturais em estufas, sistemas de rega, máquinas agrícolas, caminhos rurais e estradas de acesso às explorações. Há ainda “fenómenos de erosão numa área significativa das explorações agrícolas ao longo do país, com uma evidente perda de solo fértil”.

Questionado sobre se os apoios anunciados são suficientes, a CAP é clara: “De forma nenhuma”. O responsável critica o facto de os diplomas publicados para o Restabelecimento do Potencial Produtivo e linhas de crédito serem exclusivos para os 68 concelhos onde foi decretado o estado de calamidade, deixando de fora outros territórios também afetados. Além disso, considera que o montante global de 40 milhões de euros disponível no PRR “fica muito aquém das necessidades”.

Sobre o modelo de seguros agrícolas, a posição é igualmente negativa. “O atual seguro de colheitas não só está desfasado da realidade, como peca pela inexistência, ao longo dos anos, de uma gestão e coordenação global”, criticou, defendendo que não existe atualmente nenhuma seguradora capaz de estabelecer contratos para fenómenos extremos como os que o país está a viver. A CAP admite ainda o risco de abandono da atividade, “embora os agricultores sejam muito resilientes e já tenham sido, no passado, confrontados com situações extremas devido a catástrofes naturais." O setor está muito endividado, pelo que a destruição que ocorreu poderá, sem dúvida, levar a que existam agricultores a desistir”, sublinhou.

Quanto ao impacto nos consumidores, Luís Mira afirmou que “até ao momento os agricultores estão a tentar cumprir os seus contratos de abastecimento, quer a nível nacional, quer internacional”, não se verificando para já quebras no abastecimento. “Admitimos que possa existir algum aumento ao nível dos preços de bens alimentares, mas que não deverá ser transversal a todos os produtos.” Por fim, considerou que o setor enfrenta um desafio estrutural, defendendo maior acesso ao regadio, tecnologias inovadoras, agricultura de precisão, ferramentas digitais, biopesticidas, produtos fitofarmacêuticos eficazes e novas técnicas genómicas, como forma de adaptação às alterações climáticas e à crescente pressão produtiva.

Mondego e Douro em dificuldades

Nos últimos dias, surgiram dados oficiais sobre o impacto do mau tempo no Norte do país, por exemplo. Segundo informação avançada à Lusa, os agricultores daquela região apresentaram 1.695 declarações de prejuízo diretamente relacionadas com as tempestades, num montante estimado em cerca de 25 milhões de euros de prejuízos reportados até ao momento.

De acordo com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), cerca de 70% das declarações de prejuízo registadas no Norte têm origem no Douro, uma região com forte peso no setor vitivinícola e agrícola. Este volume de ocorrências evidencia o impacto significativo do mau tempo numa das regiões com maior peso vitivinícola e agrícola do país.

Já na região do Vale do Mondego, a situação agravou-se após as tempestades com a rutura do dique da margem direita, que provocou cheias descontroladas e deixou terrenos agrícolas submersos e inacessíveis. “Neste momento não conseguimos dizer um número exato de prejuízos”, começou por afirmar o presidente da Cooperativa Agrícola de Coimbra, Pedro Pimenta, ao Conta Lá, explicando que à tempestade se juntaram as cheias do Mondego, criando um grau de destruição ainda impossível de quantificar, mas que deverá resultar em “várias dezenas de candidaturas” a apoios.

O presidente da Cooperativa Agrícola de Coimbra descreve um cenário de coberturas de armazéns arrancadas, estufas destruídas e culturas hortícolas, flores e plantas ornamentais perdidas. Com as cheias, o impacto tornou-se ainda mais profundo: sistemas de rega danificados, campos assoreados, lixo e pedras arrastadas pela força da água, acessos destruídos. Mas o problema não é apenas físico. “É também financeiro, sem dúvida”, respondeu sem hesitar quando questionado sobre dificuldades imediatas de tesouraria. A região já vinha de dois anos difíceis no milho e no arroz, com preços baixos à produção e quebras de produtividade. O temporal surge num momento em que muitos agricultores tinham margens reduzidas.

A cooperativa confirma pedidos de crédito de emergência e adiamento de pagamentos. E enfrenta também constrangimentos próprios: a rutura do dique afetou a unidade de secagem e armazenagem, onde ainda se encontram duas mil toneladas de milho em silos, num universo atual de 14 mil toneladas transacionadas. A maior preocupação agora é estrutural com a recuperação do canal de rega da margem direita. A instalação das culturas de primavera/verão, tais como milho, arroz e batata, aproxima-se, e os custos são elevados: cerca de 2.000 euros por hectare no caso do milho e 5.000 euros na batata. Sem garantia de rega durante o verão, o risco financeiro multiplica-se. “Os agricultores estão apreensivos”, sublinhou Pedro Pimenta, numa região onde mais de duas mil famílias dependem diretamente da agricultura.

Cereais de inverno comprometidos

No Alentejo e no Vale do Tejo, o impacto fez-se sentir sobretudo nas culturas de inverno. Jorge Neves, presidente da Associação Nacional dos Produtores de Milho e Sorgo (ANPROMIS), explicou-nos que as chuvas persistentes desde o início do ano comprometeram culturas já instaladas e inviabilizaram novas sementeiras. No perímetro de rega do Caia, referiu, poderá existir apenas cerca de 30% do potencial produtivo normal. No Vale do Tejo, “praticamente pouco ou nada se semeou”.

Os principais cereais de inverno, como trigo, cevada, aveia e centeio, são os mais afetados. O que não foi semeado dificilmente será recuperado nesta campanha, sobretudo em terras de sequeiro. A consequência é direta: menos produção nacional significa mais dependência externa. “Cada tonelada a menos produzida no país é uma tonelada a mais que importamos”, afirmou Jorge Neves. Num contexto internacional volátil, essa dependência expõe o país a flutuações de preços e riscos de abastecimento.

Ainda assim, o dirigente distingue o cenário dos cereais de primavera, como o milho e o arroz. Se as condições meteorológicas estabilizarem e as infraestruturas de rega forem repostas rapidamente, há margem para instalar a campanha. O fator crítico volta a ser estrutural: sistemas de rega, margens de rios e canais destruídos pelas cheias. Sem reposição do potencial produtivo, a capacidade de recuperação fica comprometida.

Algarve: citrinos com perdas até 40%

No Algarve, o impacto incidiu sobretudo sobre os citrinos. Segundo a nota de imprensa divulgada pela AlgarOrange, as perdas situam-se de forma genérica na ordem dos 25%, podendo atingir os 40% em determinadas variedades.

A conjugação de humidade prolongada, podridões, queda de fruta e fenómenos extremos de vento e granizo agravou o cenário. Parte da fruta caiu ao chão; outra permanece na árvore, mas já se encontra deteriorada, o que antecipa novas perdas nas próximas semanas.

Além da quebra de produção, os custos de colheita aumentaram substancialmente. Com terrenos saturados de água, tratores afundam-se e muitos frutos têm de ser colhidos manualmente, em condições adversas. A associação admite que os preços à produção deverão refletir alguma subida, mas essa correção dificilmente compensará integralmente as perdas.

Um choque económico com efeitos em cadeia

O impacto das tempestades não é homogéneo, mas converge num ponto essencial: fragiliza agricultores que já operavam com margens reduzidas e aumenta a pressão sobre a produção nacional de alimentos.

No Mondego, o risco imediato é a falta de rega e a incapacidade de instalar culturas de primavera. No Alentejo e no Tejo, a campanha de inverno sofreu perdas significativas. No Algarve, uma parte substancial da produção de citrinos perdeu-se antes de chegar ao mercado. O efeito em cadeia pode fazer-se sentir nos preços ao consumidor e na balança comercial, num país já estruturalmente deficitário em cereais.

Apesar disso, tanto no centro como no Sul, a palavra dominante entre os dirigentes do setor é resiliência. Jorge Neves fala numa “mensagem de esperança” que caracteriza os agricultores. Pedro Pimenta garante que tudo será feito para “não deixar cair ninguém”. Mas a resiliência tem limites, sobretudo financeiros. Sem reposição célere das infraestruturas de rega e sem mecanismos de apoio eficazes, a recuperação poderá não ser automática e o custo deste inverno poderá prolongar-se muito além das águas que agora começam a baixar.