Telmo Guerra leva a arte da Serra da Estrela até aos palcos internacionais

Artista da Covilhã vive na Suíça e criou peças para o Papa, para o Comité Olímpico Internacional, para as Federações Internacionais de Motociclismo e de Voleibol e tem um painel gigante instalado onde se realiza o Grande Prémio de Fórmula 1 do Qatar
Ana Ribeiro Rodrigues
Ana Ribeiro Rodrigues Editora-executiva
21 fev. 2026, 09:00

Em criança, já desenhava e pintava a carvão. Era algo intuitivo e “uma necessidade”. Mas a formação é em Psicologia e o percurso nas artes é de autodidata. Telmo Guerra, natural da Covilhã e emigrado na Suíça, tem feito ao longo dos anos peças em baixo-relevo em cerâmica, madeira e vidro expostas em grandes palcos internacionais.

Fez para cada um dos cinco campeões portugueses as “portas dos olímpicos”, criou peças para Manuel Cargaleiro, José de Guimarães, tem 12 obras expostas no Comité Olímpico Internacional, entregou duas criações suas ao Papa Francisco, tem a sua marca na sede da Federação Internacional de Motociclismo, na de Voleibol e, desde novembro, está instalado um painel da sua autoria, de 12 metros de comprimento por três de altura, no Circuito Internacional Lusail, onde se realiza o Grande Prémio de Fórmula 1 do Qatar.

Apesar desse desejo, Telmo Guerra, nascido há 52 anos na vila do Tortosendo, e emigrado em Neuchâtel há 14 anos, não consegue viver ainda exclusivamente da arte. É educador social no país helvético, onde tem o atelier, e afirma que a atividade o ajuda nas gravuras que cria.

“Ser educador social ensinou-me a olhar para o ser humano com profundidade, a respeitar histórias, fragilidades e silêncios. No fundo, tanto na educação como na arte, eu estou sempre a trabalhar com a mesma matéria: a vida humana”, realça, ao Conta Lá.

Inspiração na azulejaria portuguesa

O artista luso tem-se destacado pelas peças onde utiliza elementos da cultura portuguesa como inspiração, na azulejaria, na geometria, na história, na memória dos lugares e no quotidiano. Telmo Guerra afirma que emigrar permitiu-lhe encontrar o seu caminho e moldar o seu trabalho. “É preciso sair da ilha para ver a ilha”, salienta, citando Saramago.

“Eu sou homem que nasceu na Covilhã e que carrega a sua terra como um lugar interior, mesmo vivendo fora”, acentua.

Telmo Guerra começou aos dez anos a fazer desenho a carvão, pintura com tinta acrílica e passou por outras técnicas, mas há muito que a forma de expressão artística privilegiada é a gravura em baixo-relevo e é esse método que tem explorado e com o qual tem ganhado protagonismo. Um percurso traçado por conta própria, “com tentativa, erro, obsessão pelo trabalho e uma vontade enorme de evoluir”.

As primeiras obras estão na vila onde nasceu, onde também desenhou um painel especial, alusivo à mãe, mas da encosta da Serra da Estrela levou a sua criatividade e várias latitudes.

 

 

Recebeu Medalha Pierre de Coubertin

As obras mais relevantes, considera, são as que criou para o Comité Olímpico Internacional. “Representam um diálogo direto com uma instituição mundial e com valores que sempre me tocaram: excelência, respeito, superação e dignidade”, acentua o artista.

Acabou por ser agraciado, em 2024, com a exclusiva Medalha de Ouro Pierre de Coubertin e, posteriormente, com o Troféu do Presidente do Comité Olímpico Internacional. É “a única pessoa no mundo a receber ambas” as distinções. “Mais do que prémios, são sinais de que o caminho, mesmo quando é duro, solitário e invisível, pode ser reconhecido”, avalia.

“Quando ouvi o meu nome, lembrei-me das dúvidas, dos anos de trabalho invisível. Não foi apenas uma medalha. Foi um símbolo de resistência. Uma confirmação de que persistir também é um talento”, descreve Telmo Guerra.

Um dos momentos mais marcantes na vida foi quando entregou ao Papa Francisco, no Vaticano, uma gravura da sua autoria. “Ali senti a arte como uma espécie de mensagem que viaja por ti e chega onde tu, sozinho, talvez nunca chegasses”, enfatiza.

Educador social formado em Psicologia é autodidata

Com mestrado em Psicologia feito na Universidade da Beira Interior, o criador do Tortosendo considera que utiliza essa formação também na arte, especialmente quando desenha os habituais rostos, muito presentes nas suas obras feitas em materiais que resistem ao tempo.

“A Psicologia entrou como uma lente: ajudou-me a perceber emoções, contradições, expressões, a complexidade do rosto humano. Isso está completamente presente no que faço”, ilustra.

Para já, vai continuar a exercer as duas funções, porque não criar não é uma opção. Viver apenas da arte, diz, não depende apenas de ter talento, mas condições, continuidade, projetos regulares, parcerias consistentes e “um mercado que não obrigue a recomeçar do zero todos os meses”.

 

Gravuras em portas homenageiam os cinco campeões olímpicos

As oportunidades têm surgido “com insistência, propostas enviadas, mensagens que ficam sem resposta, portas fechadas aquela teimosia de quem não consegue desistir” e a dificuldade em encontrar do outro lado a pessoa certa que arrisque no seu trabalho, “antes de ser óbvio para todos”.

Telmo Guerra afirma ter ideia e propostas em estudo no Tortosendo, na Covilhã e na Suíça, ainda sem certezas. ”Neste momento estou no lugar onde muitos artistas estão: a tentar abrir portas”.

Em Portugal tem várias peças espalhadas por alguns pontos do país e um painel em cerâmica que retrata a história da cidade. As “portas dos olímpicos”, gravuras que executou para homenagear Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro, Nelson Évora e Pedro Pichardo, entregues aos atletas, foram um dos marcos no caminho.