Sabugueiro: Portugal tem "a melhor baga", mas não a usa
É o sabugueiro que em maio transforma os terrenos do Vale de Varosa numa mancha branca e lhes traz um cheiro muito característico. Apesar de ser importante na paisagem de Tarouca, o sabugueiro está a cair no esquecimento por “falta de incentivos à produção”. Quem o diz é Amélia Albuquerque, responsável da OPAV, Organização de Produtores Agrícolas do Varosa. Esta associação, com cerca de 500 sócios, recebe a baga, transforma-a em mosto (líquido) e vende o produto para o estrangeiro.
“Temos a melhor baga, mas em termos de transformação farmacêutica, de coloração, não se lhe dá qualquer utilização”, explica Amélia Albuquerque, em entrevista ao Conta Lá.
Em Portugal, a baga não é transformada, mas lá fora, ganha diversos usos: "Infelizmente, nós aqui não transformamos a baga. Tem essencialmente a função de corante e é nesses termos que ela se afirma no mercado”.
Entre os países que mais recebem a baga portuguesa estão a Alemanha e a Holanda. “A Áustria e a Polónia também produzem esta planta, mas com um brix (índice de açúcar) mais baixo. O índice de brix da nossa baga é superior a qualquer outro país da Europa. Em termos de cor e de açúcar, a nossa é melhor do que todas as outras”.
Apesar de ser considerado um arbusto de sequeiro, o sabugueiro também se adapta a ambientes húmidos. “Dá-se em todo o lado e à beira-rio aparecem sem ser plantados, até são às vezes arbustos invasivos em algumas propriedades”, destaca.
Antigamente, a baga tinha outros fins: servia para dar “cor e algum aveludado ao vinho". "É o que dizem os técnicos do vinho, embora só se detecte com análises muito finas”, explica Amélia Albuquerque.
“Os sabugueiros faziam parte dos terrenos, serviam de vedações à volta de um campo de batatas, de um campo de cebolas, por exemplo. Plantavam-se para fazer a bordadura”, recorda a responsável.
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Da flor à própria baga, o sabugueiro pode ter tanto usos medicinais, como de culinária. Amélia Albuquerque explica que se fazem na zona “uns licores quer da flor, quer da baga". "Mas é um bocadinho para mostrar em alguns eventos ou para consumo próprio”, refere.
A baga é também usada em compotas ou como decoração de bolos. Com a flor, faz-se chá que, segundo a tradição, “faz bem à constipação, à tosse, a tudo o que tem a ver com o aparelho respiratório”.
A flor pode ainda ter outras aplicações: “Serve para fazer licores, gin com cheiro à flor de sabugueiro e néctares. Os nórdicos usam imenso em bebidas alcoólicas esses concentrados de flor de sabugueiro.”
Por ano, produz-se cerca de 600/700 toneladas de baga de sabugueiro na zona de Tarouca. Em 2025, foi vendida a 60 cêntimos por quilo. A produção voltou agora a aumentar, depois de em 2021/22, com a seca, ter havido um decréscimo.
Amélia Albuquerque alerta para as dificuldades no setor, apelidando a agricultura como o “parente pobre em Portugal” e apontando a emigração como um dos entraves: “Há muita emigração, os filhos dos produtores antigos estão fora e os nossos produtores estão um bocadinho envelhecidos.”