Natal longe de casa: o projeto que junta estudantes internacionais e famílias portuguesas
Longe de casa e da família, dezenas de estudantes internacionais passam o Natal em casas portuguesas, graças a um projeto promovido pela Erasmus Student Network Portugal (ESN Portugal).
Para muitos estudantes internacionais a viver em Portugal, o Natal é sinónimo de distância, saudade e até solidão. Com voos caros e famílias a milhares de quilómetros, nem todos conseguem regressar a casa nesta época festiva. Foi, precisamente, para responder a essa realidade que nasceu o projeto “Natal com Famílias Portuguesas”. Esta iniciativa da Erasmus Student Network Portugal (ESN Portugal) vai na sexta edição e proporciona, a estudantes estrangeiros, a experiência de passar a consoada e o dia de Natal integrados no seio de famílias portuguesas.
No Porto, o projeto continua a crescer e a somar histórias de partilha, diversidade cultural e integração, tanto para quem chega, como para quem abre as portas de casa.
“O objetivo não é apenas evitar que os estudantes passem o Natal sozinhos”, explica Márcia Branco, voluntária local da ESN Porto. “É também dar às famílias portuguesas a oportunidade de conhecer novas culturas. Há aqui uma troca muito recíproca”, acrescenta.
Criado pela ESN Portugal há seis anos, o projeto foi sendo adotado e consolidado nas várias secções locais. No Porto, a iniciativa tem sido afinada ano após ano, com melhorias no processo de inscrição e correspondência, sempre com base no feedback de participantes anteriores.
A correspondência entre estudantes e famílias é feita através de formulários, nos quais são considerados critérios como restrições alimentares, alergias, presença de animais, disponibilidade para pernoitar e preferência por passar apenas a consoada, no dia 24, ou também o dia 25.
Os números revelados pela ESN Porto mostram o grande interesse na iniciativa. Este ano letivo, inscreveram-se 125 estudantes internacionais e 46 famílias portuguesas. Muitos estudantes ficaram sem correspondência, uma realidade que evidencia a necessidade de haver mais famílias disponíveis para acolhê-los.
“Quando a correspondência acontece, o feedback é sempre muito positivo”, sublinha Márcia Branco. “Criam-se laços, trocam-se mensagens depois, postais, fotografias. Em muitos casos, o contacto mantém-se para lá do Natal.”
Joana Gomes é uma das voluntárias que, este ano, juntamente com a sua família, vai abrir a porta de casa a um estudante italiano da Universidade de Aveiro. A motivação vem da experiência pessoal: fez Erasmus na Hungria e sabe o impacto que o acolhimento local pode ter. “Quando voltei, juntei-me à ESN Porto como forma de retribuir aquilo que recebi”, afirma Joana. E completa: “este projeto faz todo o sentido para quem vive este mundo Erasmus.”
Antes de se conhecerem, Joana trocou mensagens com Leonardo Bottalico, o estudante que vai receber, para acertar detalhes logísticos. Mas a primeira vez que se viram foi nesta reunião online, que pudemos testemunhar.

No serão de Natal, a mesa será grande, composta por 15 pessoas, entre familiares de várias idades, com o Xavi, o cão da família, a alegrar a noite. Bacalhau, cabrito, rabanadas, jogos de tabuleiro e muita conversa fazem parte do plano. “É um Natal diferente, mas também muito especial. E é bom saber que ninguém vai passar esta noite sozinho”, afirma Joana.
Expectativas de um italiano para o Natal português
Leonardo Bottalico conheceu o projeto através da ESN e não hesitou em inscrever-se. Longe da família, admite que a saudade pesa mais nesta altura do ano. “Não há nada como passar o Natal em família”, diz. “Por isso, esta iniciativa dá-nos tranquilidade e faz-nos sentir incluídos.”
Curioso com as tradições portuguesas, Leonardo espera conhecer melhor a cultura local, os pratos típicos e a forma como se vive esta época em Portugal, diferente da realidade italiana, mas igualmente marcada pelo convívio e pela partilha.
Para Aybala Imer, estudante turca da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, esta experiência tem um significado especial: será o primeiro Natal da sua vida. Cresceu no seio de uma família muçulmana e, por isso, nunca celebrou esta festividade no seu país de origem. “Quero ver como é o Natal, será a primeira vez”, explica. E as expectativas são altas: “Espero um jantar longo, com muitas pessoas, um ambiente descontraído, comida boa e jogos.”
Aybala vai passar a consoada com uma família portuguesa, acompanhada por outras duas estudantes internacionais que conheceu cá, uma turca e uma alemã, o que lhe dá um maior conforto. “Queremos estar juntas e, ao mesmo tempo, viver algo novo.”
Sobre Portugal, não esconde o entusiasmo: “É um país mais calmo do que aquele de onde venho. As pessoas têm tempo, são acolhedoras. Gosto muito de estar aqui.”
Aybala acredita na eficácia deste projeto no combate à solidão dos estudantes deslocados e salienta que “estar com amigos ou participar nestas iniciativas faz toda a diferença. O importante é não passar esta altura sozinho.”
Ao aproximar culturas, crenças e histórias pessoais, o “Natal com Famílias Portuguesas” transforma uma noite potencialmente solitária numa experiência de pertença e prova que, mesmo longe de casa, é possível sentir-se em família.