Guarda é mais uma capital de distrito sem cinema: "Isto mostra como a cultura é posta de lado"

O encerramento das salas de cinema na Guarda apanhou o município de surpresa. A população lamenta a falta de investimento na cultura local e a pouca atenção dada às necessidades de quem vive na cidade.
Inês Miguel
Inês Miguel Jornalista
09 jan. 2026, 12:25

Sé da Guarda num dia de sol
Fotografia: Guarda é mais uma capital de distrito sem cinema

Guarda deixou de ter exibição comercial e regular de cinema, na sequência do encerramento definitivo das quatro salas que a Cineplace explorava no Centro Comercial La Vie. Com este fecho, a Guarda junta-se ao leque de capitais de distrito sem exibição comercial e regular, num cenário semelhante ao que já acontece em Bragança, Beja e Portalegre.  

O presidente da Câmara Municipal, Sérgio Costa, refere ao Conta Lá que o processo apanhou o município de surpresa. "A informação que tenho é que a empresa entrou em processo de insolvência por uma série de fatores. Fomos todos apanhados de surpresa", sublinha.

O autarca explica, no entanto, que a Guarda "tem uma agenda cultural que inclui sessões de cinema no Teatro Municipal da Guarda", sublinha.

Ainda assim, a população mostra tristeza e apreensão com o sucedido.

Renata Belo, proprietária de um estabelecimento de restauração às portas da cidade, mostra-se preocupada com o encerramento do espaço.

"Cresci a ir ao cinema com amigos, a discutir os filmes à saída e a sentir aquela emoção única de ver uma história ganhar vida num ecrã gigante. O encerramento deixa um vazio difícil de explicar. Numa capital de distrito, as opções de lazer já são poucas, e perder o cinema é mais um motivo para as pessoas se afastarem, procurando noutras localidades aquilo que aqui já não existe", revela.

Renata Belo compreende que os tempos mudam e que hoje em dia muitos preferem ver filmes em casa, mas que nada substitui a experiência do cinema. "O silêncio antes do filme começar, as luzes a apagar-se e a sensação de partilhar emoções com desconhecidos. O fecho deste espaço mostra também a falta de investimento na cultura local e a pouca atenção dada às necessidades das pessoas que vivem aqui", remata.

Ricardo Marques reside na Guarda e também lamenta o sucedido. Refere que, como jovem, sempre viu o cinema da cidade como um dos poucos espaços de lazer acessível para a faixa etária. "Era um lugar onde podíamos sair com amigos, assistir a lançamentos e esquecer um pouco a rotina. Com o encerramento do cinema, a cidade fica ainda mais parada e sem opções para a juventude, pois fazia parte da nossa identidade e convivência. Este acontecimento mostra como a cultura é posta de lado", salienta.

Em comunicado, o Centro Comercial La Vie Guarda informou que o "modelo de negócio atualmente exigido implica a garantia de números mínimos de afluência de espetadores, condição que tem sido muito difícil de atingir de forma consistente, nos últimos anos, tendo estas sido as razões apontadas como justificativas do Plano Especial de Revitalização (PER) apresentado pelo operador dos cinemas neste centro comercial".

A administração do La Vie lamentou este facto, sendo mais um encerramento a somar aos diversos casos ocorridos em 2025, que "em muito resultam da alteração dos hábitos de consumo, e do crescimento do mercado das plataformas de streaming, que impactam de forma direta no setor da exibição cinematográfica".

Além disso, a nota de imprensa acrescenta ainda que o La Vie Guarda tem em curso o "estudo de novas soluções, e conceitos, que possam responder às expectativas da comunidade local e contribuir para a dinamização da cidade da Guarda e da região".