Fertilizantes, material para contenção de solos e painéis de isolamento: o futuro da lã pode ir muito além da produção de tecidos
Projetos portugueses mostram que é possível aproveitar um recurso abundante, a lã, e convertê-lo num outro produto que não o tecido. Objetivo é aumentar o valor da matéria-prima, mas os projetos têm esbarrado numa diretiva comunitária.
O anúncio do encerramento do último lavadouro de lã do país, na Guarda, fez soar as sirenes de alarme de quem produz este bem. Os produtores portugueses podem ficar espremidos entre duas opções: ou encaminhar para fora de Portugal a lã para ser lavada, o que acarreta enormes custos, ou, pura e simplesmente, deixar de produzir.
De resto, o preço da lã tem, ao longo dos anos, caído a pique, muito por força de novos materiais na confeção de vestuário que conseguem ter preços muito mais competitivos, nomeadamente os tecidos sintéticos, ocupando, estes últimos, 67% do mercado têxtil global. Já a lã, exceto a certificada, fica-se por uma quota de 0,9% da procura mundial.
Tudo isto faz com que o valor da lã esteja em patamares tão baixos que o preço por quilo, cerca de cinco cêntimos, fica a léguas do preço de uma tosquia, cujo valor ronda os dois euros.
"É uma batalha perdida". É assim que Gil Vicente, assessor da direção da Ovibeira, classifica a guerra da lã com os tecidos sintéticos. Para o responsável da Associação de Produtores Agropecuários da Beira Baixa, que conta com mais de 2.600 associados, este cenário "obriga a encontrar alternativas para os 4,5 milhões de quilos de lã que Portugal produz anualmente".
No contexto da associação, são vários os projetos na calha, desde painéis de isolamento, material para contenção de solos e mesmo fertilizantes. O problema é que, em alguns casos, estas ideias têm "esbarrado no facto de a lã ser considerada um subproduto animal de categoria três, que acarreta riscos de contaminação de doenças animais, impedindo a sua utilização sem um prévio processo de esterilização", explica Gil Vicente ao Conta Lá.
"Estes processos são bastante caros e esgotam qualquer possibilidade de criação de uma indústria alternativa, na medida em que fazem disparar o preço de produção", lamenta o produtor.
Um dos exemplos destas limitações é o projeto que a Ovibeira tentou implementar na Serra da Gardunha. A ideia era usar a lã, sem ser lavada, para conter solos fustigados por incêndios, usando-a como barreira para o deslizamento de terras e como elemento de filtragem das àguas. Esta solução foi rejeitada pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), por alegadamente existir o risco de transmissão de doenças.
No mesmo sentido correm vários projetos da ANCORME (Associação Nacional de Criadores de Ovinos de Raça Merina), que tem procurado novas alternativas para valorizar esta fibra. "Estamos a desenvolver projetos inovadores, como a produção de pellets para a agricultura, que ajudam na retenção de água e fertilização dos solos, e a substituição da borracha em relvados sintéticos por pellets de lã. Do ponto de vista ambiental e da saúde dos desportistas, as vantagens são enormes", explica Tiago Perloiro, diretor-geral da associação.
Atualmente, todos estes projetos estão parados, precisamente pelo facto de existir uma diretiva comunitária que classifica a lã como subproduto animal de categoria três, inviabilizando qualquer projeto economicamente viável. Por isso, as associações de produtores reivindicam uma alteração na classificação da lã que, para já, é vista, legalmente, apenas como um osso ou um pedaço de gordura animal.
A lã como mais do que uma fibra
Apesar das limitações legais ao uso da lã, há quem consiga contornar os problemas e avançar com iniciativas alternativas. José Azoia, agricultor, vai dedicando partes do seu tempo (e da exploração agrícola) ao estudo e implementação de práticas de agricultura regenerativa.
"Durante uma formação de agricultura regenerativa onde o tema foi aflorado, por já se realizar em Espanha", conta José Azoia, surgiu a ideia de desenvolver um projeto que visa aproveitar a lã para a produção de adubos.
A partir daí, e por conta própria, começou a estudar o processo que passa por “converter a lã em aminoácidos, através da intervenção de reagentes químicos para a fertilização dos campos de cultivo”, diz o jovem agricultor ao Conta Lá, sem querer revelar os "pormenores, que são a alma do negócio".
Para que isso aconteça estão, neste momento, a ser levados a cabo “ensaios em larga escala”, que já permitiram produzir cerca de 800 litros de aminoácidos com recurso a este processo químico que acelera a decomposição da matéria. Os aminoácidos são vitais na síntese proteica das plantas, servem como blocos de construção de proteínas que resultam no crescimento e desenvolvimento das plantas. Este será um adubo foliar, aplicado diretamente na planta.
Para já, é com lã própria e alguma outra cedida por amigos - que, à semelhança de cada vez mais pequenos produtores, não têm outra utilização que possam dar ao produto - que os ensaios têm sido feitos e os resultados parecem animadores.
Na cabeça do jovem empreendedor está, no entanto, um projeto que visa criar uma “unidade móvel de conversão de lã em fertilizante”. A mobilidade do projeto traz vantagens, uma vez que “em vez de ser a lã a deslocar-se, o que tem custos elevados dada a dimensão e peso do produto, seríamos nós a visitar cada produtor e fazer a conversão no terreno”, explica o agricultor.
O grande mérito do projeto, acredita, será “o custo de produção ser baixo em relação ao preço dos atuais adubos à base de aminoácidos em comercialização, cerca de metade ou menos”.
O exemplo alemão em Castelo de Vide
Há quatro anos, um casal alemão apresentou em Castelo de Vide outra forma de transformar esta matéria-prima. Nascia assim o projeto Boa Terra, que também destina a lã a outro fim que não a produção de têxteis.
Em 2022, o casal explicou como transformar lã, apenas de ovinos, em pellets para produzir um corretor de solo, ou seja, um produto que reponha nos terrenos as propriedades necessárias à produção de culturas.
A iniciativa mereceu, na altura, o apoio da autarquia, pelo então presidente António Pita. O ex-autarca explica ao Conta Lá que, por forma a aproveitar uma matéria-prima cujo valor estava em queda, decidiu apostar num projeto pioneiro no país e motor da sustentabilidade local.
O grande investimento deste projeto prende-se com a aquisição da maquinaria na Alemanha. Em concreto, a lã é transformada através de uma máquina que tritura o produto em pequenos pedaços, entre os quatro e sete milímetros, que depois são compactados a alta pressão e higienizados a uma temperatura de 100 graus.
Apesar de já se encontrar pronto para comercialização, o produto encontra-se, ainda, na última fase de licenciamento, que passa por uma bateria de exames químicos para que este fique de acordo com as normas estabelecidas pela U.E.
Os mentores consideram que "este é um caminho alternativo e rentável para uma matéria-prima não utilizada e que pode, por isso, trazer rendimento e sustentabilidade para os negócios de produção de lã".
DGAV reconhece as "dificuldades dos ovinicultores nacionais"
O Conta Lá contactou a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), para tentar perceber se existe alguma intenção por parte das autoridades de rever a categorização da lã.
Por escrito, a entidade reconhece as “dificuldades que os ovinicultores nacionais enfrentam no escoamento da lã e está sensibilizada para a necessidade de encontrar soluções legais e seguras para este constrangimento”. Mostra-se, nesse sentido, disponível “para colaborar na identificação e desenvolvimento de alternativas viáveis e compatíveis com o enquadramento legal”.
Lembra no entanto que a lã "não é um material inócuo e apresenta riscos para a saúde humana, animal e para o ambiente, podendo transmitir agentes patogénicos, como parasitas, fungos e bactérias, bem como resíduos químicos como pesticidas, inseticidas ou antiparasitários utilizados no tratamento dos animais".
Assim, pode apenas ser utilizada quando a matéria-prima “seja submetida a tratamentos que eliminem os riscos inaceitáveis, como a lavagem industrial ou outros processos previstos no Regulamento (UE) n.º 142/2011, de 25 de fevereiro”.