Desenvolvimento económico e segurança alimentar são prioridades para Norte e Galiza

Documento do Eixo Atlântico apresentado esta quinta-feira analisou a situação da região do Norte de Portugal e da Galiza, em Espanha. Defende uma maior liderança local na promoção da produção e do consumo de proximidade.

Agência Lusa
Agência Lusa
15 jan. 2026, 15:50

Relatório do Eixo Atlântico destaca papel dos municípios no desenvolvimento económico e na segurança alimentar
Fotografia: O relatório foi apresentado em Viana do Castelo

O Eixo Atlântico apresentou esta quinta-feira o seu relatório socioeconómico anual de 2024 que reforça o papel dos municípios no desenvolvimento económico e na segurança alimentar da eurorregião Norte de Portugal e Galiza.

O estudo, apresentado publicamente na biblioteca municipal de Viana do Castelo, dá uma “visão analítica conjunta" da economia da eurorregião Galiza-Norte de Portugal, na perspetiva das cidades que compõem o sistema urbano do Eixo Atlântico. 

O Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular é uma organização intermunicipal transfronteiriça que junta atualmente 39 concelhos do Norte de Portugal e da Galiza.

O documento, com 200 páginas, apresenta uma visão integrada da evoluçãoeconómica, social e territorial, destacando o papel dos municípios como motor de desenvolvimento. 

O seu objetivo é proporcionar aos responsáveis municipais e agentes económicos e sociais ferramentas de análise que facilitem a elaboração de políticas de promoção económica de âmbito local, com especial atenção a sectores estratégicos como o solo industrial, a produção, as exportações, a logística e os transportes.

Um dos eixos centrais do relatório é a alimentação e a segurança alimentar, uma prioridade estratégica da União Europeia que ganhou ainda maior importância após a crise da covid-19 e as recentes tensões geopolíticas. 

Nesta área, o estudo destaca o papel fundamental dos municípios, tanto em contextos urbanos como rurais, através de iniciativas como hortas urbanas, mercados de produtores e feiras de produtos locais, que reforçam a economia de proximidade e a resiliência do sistema alimentar.

O relatório realça, em particular, a importância da atuação municipal nas zonas rurais, onde estas iniciativas contribuem diretamente para o aumento do rendimento dos produtores e para a valorização da produção local e da sua sazonalidade. Salienta ainda a necessidade de avançar para uma maior organização da produção local, sobretudo em territórios caracterizados pelas pequenas propriedades, como a Galiza e o Norte de Portugal, promovendo o papel das cooperativas e das organizações de produtores.

Entre as propostas apresentadas, o estudo destaca a promoção de circuitos curtos de abastecimento alimentar, o fornecimento de produtos locais a cantinas públicas e entidades sociais, e a incorporação progressiva do comércio a retalho local, acompanhada de apoio técnico aos agricultores para garantir a regularidade da produção e o cumprimento da legislação europeia, com financiamento através dos programas PEPAC de Portugal e Espanha.

O relatório foi elaborado por Fernando González Laxe, professor de Economia na Universidade da Corunha e ex-presidente da Xunta de Galiza, e Arlindo Cunha, docente de Economia da Universidade Católica do Porto.

Arlindo Cunha, que foi também ministro da Agricultura nos Governo de Cavaco Silva e Ministro das Cidades no governo de Durão Barroso, salientou que “o abastecimento e a segurança alimentar são uma prioridade transversal a todos os níveis de governação e uma matéria cada vez mais atual”.

Arlindo Cunha, que fez uma análise centrada no setor agricultura, destacando a situação alimentar a nível alimentar e da União Europeia, referiu que “a margem de atuação dos municípios nesta área é grande”, considerando que “podem e devem dar um grande salto de liderança política”.

Sendo entidades com recursos e liderança política, os municípios poderão promover a elaboração de programas mais robustos de circuitos curtos de abastecimento alimentar, especialmente em área rurais e intermédias”, disse.

Fernando González apontou as seis tendências atuais da alimentação, entre elas, “o valor do tempo que marcam os ritmos de vida”.  

“Consumimos produtos que temos tempo para cozinhar. Gastámos muito tempo nas redes sociais, mais de cinco horas por dia e cinco minutos a cozinhar e a consumir”, realçou.

Outras das conclusões do estudo, referiu o professor galego, é que as sociedades “cada vez mais gastam menos dinheiro com a alimentação”, apelando aos municípios que apoiem aos setores da agricultura e pescas dos concelhos do Eixo Atlântico, evitando a importação de alimento.

“A Galiza e o Norte de Portugal têm muitos recursos que podem promover o desenvolvimento económico, a criação de empresa e transformar a eurorregião numa fortaleza no abastecimento e segurança alimentar”, frisou.

O presidente do Eixo Atlântico, Miguel Fernández, afirmou que o estudo hoje apresentado é uma “ferramenta imprescindível para o lançamento de outros projetos” numa eurorregião que “é a terceira em área urbana da Península Ibérica e a nona da Europa, onde vivem sete milhões de pessoas”.

Além do apoio dos municípios na promoção dos produtos locais, o secretário-geral do Eixo Atlântico apelo “a uma corresponsabilização da população, consumindo bens alimentares de proximidade”.