Da aldeia à cidade, o Transporte a Pedido liga os concelhos do Médio Tejo com viagens de três euros
Aproxima-se a hora de almoço e Valéria Oliveira arrasta o carrinho de compras até à paragem da Rua Dom João de Castro, no Entroncamento, um dos locais onde está sinalizada uma das paragens do Transporte a Pedido. Aqui, aguarda sentada pela chegada da carrinha que a há-de levar a casa, após uma manhã preenchida.
“Hoje fui à farmácia aviar medicamentos que já me faziam falta, depois fui ao mercado municipal e aproveitei para fazer umas compras”, enumera ao Conta Lá.
Sem viatura própria e a viver na freguesia de Atalaia, no município de Vila Nova da Barquinha, Valéria Oliveira é cliente assídua do Transporte a Pedido, a única alternativa que tem para conseguir chegar aos concelhos vizinhos, uma vez que os autocarros que passam na localidade são escassos e “em horários difíceis”.
“Geralmente, uso o transporte uma vez por semana, para vir às compras, mas quando preciso de vir ao centro de saúde ou ao hospital, uso mais vezes. Como não tenho transporte próprio e o meu filho trabalha e não tem como me trazer, é-me muito útil”, admite.
A espera pela boleia é curta até porque o horário de chegada já está previamente definido. Com a pressa de quem quer ajudar, Miguel Santos, o motorista, chega e abre de imediato a porta da carrinha para colocar as compras na bagageira. Um pequeno gesto que gera empatia e conversa para toda a viagem.
“Acabamos por conhecer as pessoas, conversar um bocadinho, elas acabam por desabafar connosco… e nós com elas também, é bom”, confessa o condutor ao Conta Lá.
Motorista do Transporte a Pedido há três meses, admite que “não há dias iguais” e que é gratificante “poder ajudar as pessoas mais idosas que não têm carta ou já não se sentem seguras a conduzir mas não querem deixar de fazer a sua vida”.
No final da viagem, “a gente facilita e se puder deixar mais perto de casa, deixamos, o transporte é para isso mesmo”, admite Miguel Santos, fazendo com que ao pagamento do cliente se junte também um agradecimento em forma de sorriso.

Combater o isolamento e uma lacuna na mobilidade: a génese do Transporte a Pedido
Este projeto de mobilidade pioneiro a nível nacional foi implementado com o objetivo de chegar onde o autocarro não passa, num dos concelhos onde a população mais se dispersa.
“Começámos com uma experiência piloto em Mação, um concelho com 400 km2, com sedes de freguesia a 25 km da sede do município e com uma média de 16, 17 pessoas por km2, portanto, com uma densidade populacional muito baixa”, começa por recordar ao Conta Lá Miguel Pombeiro, secretário-executivo da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo. “Num local destes, com uma densidade populacional muito baixa, não há transporte público que resista a passar em todos os lugares e oferecer o serviço”, acrescenta.
Além da falta de transporte público, o alto preço de viver longe dos centros urbanos era outro problema que ansiava uma resposta.
“Havia pessoas que para virem da aldeia à sede do concelho ao médico pagavam 40 a 50 euros de táxi, ida e volta. Custos absolutamente exorbitantes para pessoas que gerem reformas muito baixas, que muitas vezes não têm apoio familiar porque os filhos estão nas grandes cidades e vivem sozinhos. O Transporte a Pedido veio permitir que continuassem a fazer a sua vida”, admite o responsável da CIM Médio Tejo.
Com a disseminação gradual do projeto pelos 11 concelhos da região do Médio Tejo, além de um serviço de mobilidade este é também “um serviço social”, onde os utentes tanto utilizam o transporte para ir ao médico como “para se deslocarem ao cabeleireiro ou ir ao lar visitar uma amiga que, de outra forma, não conseguiriam”. “E os próprios técnicos que atendem os pedidos já tratam os clientes pelo nome, já há um relacionamento e um momento de conversa que, de outra forma, não aconteceria”, acrescenta Miguel Pombeiro.
Uma chamada, uma boleia, um destino: como funciona o Transporte a Pedido
A viagem começa com uma simples chamada. “A pessoa liga de forma gratuita para a nossa central de reservas, para o 800 209 226, até às 15h00 do dia anterior à deslocação que pretende fazer”, explica o secretário executivo da CIM Médio Tejo. Apesar da “esmagadora maioria” utilizar o telefone, existe também a opção de fazer a reserva via online. “Depois, no próprio dia, no local marcado, à hora marcada, a viatura estará lá para levar a pessoa”, clarifica.
Com 1.300 paragens e mais de 80 circuitos diários em todo o Médio Tejo, há dois fatores que distinguem o Transporte a Pedido: os horários e os preços.
Ao contrário do serviço tradicional de táxi, no Transporte a Pedido os horários são predefinidos. “Na maior parte dos casos, há um horário de ida ao princípio da manhã e um horário de regresso ao final da manhã, mas há casos em que justifica um circuito de ida e regresso também da parte da tarde. Estamos sempre a receber o feedback dos utilizadores e a adaptar consoante a necessidade efetiva das populações,” admite Miguel Pombeiro, que acrescenta a tentativa de compatibilizar o serviço com a utilização de outros transportes, como é o caso do comboio e respetivos horários na estação ferroviária do Entroncamento. O mesmo acontece com as paragens. “Se as pessoas nos disserem que faz falta uma paragem em certo sítio, nós avaliamos e tentamos meter uma paragem no local que foi sugerido”, refere.
Quanto aos preços, é um dos detalhes mais apelativos do serviço. Apesar de variar consoante a distância, graças às verbas vindas do programa “Incentiva + TP” é hoje possível viajar por todo o Médio Tejo por um valor máximo de 3,00€.
“A esmagadora maioria dos transportes feitos no Transporte a Pedido são de 1,00€, sendo possível também adquirir carteiras de 10 bilhetes que têm um desconto de 30% sobre o preço normal. No caso do LINK – a ligação entre as sedes de concelho – o valor é de 3,00€. São preços simbólicos”, admite o responsável da CIM Médio Tejo.
LINK – Reforçar a ligação entre municípios vizinhos
Numa evolução do Transporte a Pedido acabou por surgir o LINK, capaz de captar também a adesão da população mais jovem e em idade ativa.
“A rede pública de transportes também não respondia às necessidades de mobilidade que o próprio Médio Tejo tem e era necessário haver ligações diretas entre as próprias sedes de concelho. E desde janeiro deste mês, começámos a ter seis horários possíveis de ligação entre todas as sedes de concelho. São ligações diretas, que se distinguem do transporte público de passageiros também por necessitarem de pré-marcação e que não obriga o passageiro a fazer a linha na totalidade”, clarifica Miguel Pombeiro. “Existem várias carreiras que fazem a ligação entre Tomar e Abrantes, mas quem quer chegar a Abrantes não se sujeita a esta carreira porque ela passa pelo interior de todas as localidades, desde Vila Nova da Barquinha, Constância, Rio de Moinhos. Ou seja, um trajeto que demora 40 minutos acaba por demorar cerca de uma hora e 40 minutos”, acrescenta.
“O LINK quer facilitar o trajeto casa-trabalho, fazendo com que as pessoas deixem o carro em casa e passem a usar este transporte. A pessoa escolhe o horário em que quer chegar ao destino e nós indicamos qual a hora indicada de partida para corresponder àquela hora de chegada, otimizando todas as rotas em função dos vários pedidos que houver e da mobilização dos meios que temos disponíveis”, sublinha o responsável.

Com a gestão em mãos de 30 contratos diferentes com operadores locais, a Comunidade Intermunicipal tem custos mensais efetivos de 20 mil euros no Transporte a Pedido e 30 mil no LINK. Mesmo assim, o projeto é “muito mais sustentável e barato do que se estivéssemos a tentar meter carreiras a servir todos estes locais com periodicidade”.
Isto porque a lógica é a de ter “operadores próximos dos circuitos para diminuir o número de quilómetros em vazio”. “Não faria sentido, por exemplo, o operador de Ourém deslocar-se ao Sardoal para fazer lá cinco quilómetros numa viagem. Otimizando os meios e as rotas, diminuímos o número de quilómetros em cerca de 94%, em comparação com o sistema de uma carreira que estava a passar todos os dias por estes locais, muitos deles onde não há clientes”, explica Miguel Pombeiro.
4.500 passageiros transportados por mês
Com quase 4.500 passageiros transportados mensalmente pelo Transporte a Pedido e pelo LINK, são os concelhos com população mais dispersa os que mais procuram os serviços: Abrantes, Mação, Torres Novas, Ferreira do Zêzere e Tomar.
Com um crescimento de 147% de 2020 a 2024, o projeto foi já premiado pela Comissão Europeia nos Regio Star Awards 2021 como escolha do público na área da mobilidade verde. Apesar do crescimento ser “permanente”, há locais onde a adesão ainda não é a esperada pela “dificuldade em comunicar um serviço que ainda é estranhado ao início” e onde falta uma maior mobilização das forças locais como Juntas de Freguesia para “descomplicar o que é o serviço e fomentar sessões para explicar às populações”.
Com os olhos postos num futuro ainda mais sustentável, o passo seguinte foi dado recentemente com a inauguração da primeira experiência de Transporte a Pedido descarbonizado - o meio E – em fase de testes com uma viatura 100% elétrica no concelho de Vila Nova da Barquinha.
Uma “grande mais valia”, admite ao Conta Lá Marina Honório, vice-presidente da Câmara de Vila Nova da Barquinha, num município com uma solicitação média de 30 viagens por semana e onde esta resposta é “ fundamental para uma população mais frágil em termos de mobilidade e onde montar uma linha de transporte urbano teria um custo muito mais acrescido e não teria a rentabilidade necessária para a sustentabilidade do serviço”, conforme esclarece.
Num projeto que se vê agora a ser replicado “de Norte a Sul”, para a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo este é “uma aposta ganha, mas em permanente redescoberta”, com o foco em chegar cada dia mais perto da porta dos cidadãos.
“É um serviço que neste momento se acabasse, seria um grande rombo na qualidade de vida de muita gente que depende disto para as coisas básicas da vida e do dia a dia”, garante Miguel Pombeiro.