Com apenas cinco produtores, Fumeiro de Boticas pode ter o futuro em causa

A produção de fumeiro é uma das características identitárias da região de Boticas, em Vila Real, mas a atividade atravessa dias difíceis. Os cinco produtores do concelho que resistem queixam-se de falta de investimento e atratividade para conseguir captar jovens e dar continuidade ao negócio.
Agência Lusa
Agência Lusa
07 jan. 2026, 16:05

Imagem de enchidos expostos para venda, com detalhe de mão a receber dinheiro de uma venda
Fotografia: Há, atualmente, apenas cinco produtores de fumeiro no concelho de Boticas. Imagem: Pedro Sarmento Morais - LUSA

Incerteza das receitas da venda de fumeiro e outros derivados do porco, bem como com a falta de apoios e de jovens para dar continuidade a este trabalho. São os dois grandes motivos de preocupação dos produtores do concelho de Boticas.

Prestes a arrancar a típica Feira Gastronómica do Porco de Boticas, que decorre de 8 a 11 de janeiro, os produtores de fumeiro deste concelho revelam as dificuldades que estão a meter em causa a continuidade da atividade.

Em Atilhó, Rosa Rodrigo e as suas duas irmãs herdaram da mãe o gosto pela produção de fumeiro, sendo as únicas na aldeia que ainda vendem nas feiras da região.

"Os jovens não querem produzir fumeiro porque é muito trabalhoso e não há incentivos nenhuns. Eu tenho os meus filhos a ajudar-me, mas duvido que continuem com isto porque estão sempre a dizer-me que produzimos à sorte, já que não sabemos se vamos vender", lamenta Rosa Rodrigo em declarações à agência Lusa.

A produtora transformou cerca de 10 porcos em fumeiro tradicional e outros derivados para o certame. Apesar de já ter clientes fixos e de enviar "fumeiro por correio para Lisboa desde a pandemia", Rosa Rodrigo defende a criação de um espaço no concelho para o escoamento dos produtos.

"Se a feira não correr bem, como já aconteceu, à conta do mau tempo, teremos de ficar com o produto. Se soubéssemos que, no final, o que sobra ia para um espaço para ser vendido, era um bom apoio", sugere.

Em Alturas do Barroso, Herculano Rua e Laurinda Silva deixaram de produzir fumeiro para vender há três anos.

"Dantes fazíamos as feiras de Boticas, Montalegre e Cabeceiras de Basto, mas já não há ninguém para ajudar e tivemos de desistir. A não ser quem já tem uma certa idade, não temos quem nos possa ajudar", explicam.

Aos 84 anos, Herculano Rua lembra que a aldeia chegou a ter três grandes produtores mas que, entretanto, deixaram de produzir por não haver jovens para dar continuidade ao negócio.

"Há cada vez menos produtores de fumeiro porque a gente nova não quer este trabalho. Está a ficar muito mau, a juventude fugiu-nos toda e é pena. [Os jovens] querem estudar e ter uma vida melhor, além de que são poucos [os que vivem] no concelho", lamenta.

De acordo com a Cooperativa Agro Rural de Boticas (CAPOLIB), à data de hoje, o concelho tem apenas cinco produtores de fumeiro.

"É um número que tem decrescido muito nos últimos anos porque as pessoas envelhecem e não há uma segunda geração que queira pegar nisto. Está muito complicado, mesmo a produção para consumo próprio tem diminuído muito porque não há jovens que se queiram fixar no território e isto é uma tragédia. Se não houver políticas públicas claras e incentivos claros, escusamos de andar com fantasias, porque quem vem para os territórios é para ganhar dinheiro", reitera Albano Álvares, presidente da CAPOLIB.

Para o responsável, este é um problema da sociedade, "não só do Governo, da Câmara ou da Cooperativa", defendendo a criação de "programas de apoio" com "compensações económicas pelo trabalho que é feito, inclusive, de preservação de hábitos e da cultura de uma região".

"As políticas públicas estão erradas e espero que sejam corrigidas muito brevemente. Se estes territórios não tiverem economia, ninguém cá fica, porque as pessoas têm de ter uma vida digna, têm de ganhar dinheiro, e para isso são precisas políticas públicas, políticas locais ativas, também, para que quem se fixa cá possa usufruir delas", defende.

Segundo os resultados definitivos dos Censos 2021, o concelho de Boticas tem cerca de 5.000 habitantes, tendo perdido quase 800 residentes em 10 anos, desde 2011.