Associação em Matosinhos investe 4 milhões para apoiar pessoas com deficiência

IPSS sediada em Matosinhos vai criar um centro comunitário, um lar residencial e um Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão, num investimento de quatro milhões de euros que procura colmatar a falta de respostas especializadas para pessoas com deficiência.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
06 jan. 2026, 14:21

Criança com deficiência
Fotografia: Polo II nasce em fevereiro deste ano em Matosinhos | Unsplash

A Associação de Apoio à Juventude Deficiente (AAJUDE) vai investir quatro milhões de euros na criação de um novo polo de apoio a pessoas com deficiência mental em Matosinhos, um projeto que pretende responder à falta de respostas sociais adequadas para esta população e que deverá começar a funcionar entre fevereiro e março de 2026.

O investimento permitirá a criação de três respostas distintas: um Centro Comunitário, com capacidade para apoiar até 100 utentes por mês, um Lar Residencial para 30 pessoas e um Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão (CACI), também com capacidade para 30 utentes. O Centro Comunitário contará com várias valências terapêuticas e de acompanhamento, incluindo fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional, terapia da fala, enfermagem e animação sociocultural, além de uma sala multifuncional destinada a atividades físicas, expressivas e de integração comunitária.

As obras do chamado Polo II arrancaram em janeiro de 2024 e têm conclusão prevista para fevereiro deste ano, enquanto o Centro Comunitário deverá abrir portas no mês seguinte. No total, o projeto deverá criar cerca de 30 novos postos de trabalho, entre técnicos especializados, terapeutas, psicólogos e auxiliares de ação direta.

A intervenção surge num contexto em que a realidade das pessoas com deficiência em Portugal continua marcada por desigualdades estruturais. A taxa de emprego das pessoas com deficiência permanece significativamente abaixo da população sem deficiência, situando-se entre os 59% e os 65%, quando na população geral ultrapassa os 79%.

No setor privado, a inclusão é ainda mais residual: menos de 1% dos trabalhadores são pessoas com deficiência. As dificuldades começam cedo, com o abandono escolar precoce entre jovens com deficiência a atingir valores quase quatro vezes superiores aos da população em geral, refletindo falhas persistentes na resposta educativa e na transição para a vida adulta. A estas fragilidades junta-se um risco elevado de pobreza e exclusão social, que afeta uma parte substancial desta população e sobrecarrega famílias frequentemente deixadas sem apoio suficiente.

É neste cenário que se insere o trabalho da AAJUDE, uma Instituição Particular de Solidariedade Social fundada em 1982, por iniciativa de um grupo de pais que procurava respostas para os filhos após o fim da escolaridade obrigatória, uma fase que continua a ser crítica para muitas pessoas com deficiência mental. Ao longo de mais de quatro décadas, a associação tem desenvolvido respostas focadas na promoção da autonomia, do bem-estar emocional e da inclusão social de jovens e adultos com deficiência mental, trabalhando não só com os utentes, mas também com as famílias e cuidadores.

A missão da AAJUDE assenta numa abordagem humanizada e individualizada, centrada nas capacidades e no ritmo de cada pessoa, com o objetivo de promover competências pessoais, sociais e funcionais que permitam uma maior participação na comunidade. A instituição assume valores como a igualdade, o respeito, a solidariedade e a dignidade, defendendo uma inclusão que vá além da assistência e que permita às pessoas com deficiência mental terem um papel ativo na sociedade. Paralelamente, a associação tem vindo a preparar projetos futuros de integração profissional, numa tentativa de quebrar ciclos de dependência e exclusão que continuam a marcar esta população em Portugal.

O investimento agora anunciado é cofinanciado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), pela Câmara Municipal de Matosinhos e por fundos próprios da associação. O Centro Comunitário conta ainda com o apoio de entidades privadas, como o Prémio Capacitar do Banco BPI, a Fundação La Caixa e o Programa Caixa Social 2024 da Caixa Geral de Depósitos.

Mais do que um novo equipamento social, o projeto pretende afirmar-se como uma resposta concreta a uma falha estrutural do país no acompanhamento de pessoas com deficiência mental, num momento em que os indicadores sociais continuam a mostrar que a inclusão plena está longe de ser uma realidade para milhares de famílias.