270.000: o número do ano é trágico e tem muitos rostos dentro
António José Mateus e a mãe continuam a ser acolhidos por amigos, depois de o fogo lhes ter roubado a casa, em Aguiar da Beira. Afonso Manuel Sapateiro perdeu os pomares e o irmão ficou sem a oficina no incêndio de Penedono. António Campos e Mário Silva são apicultores que perderam quase tudo na Covilhã.
Estas são apenas algumas das histórias divulgadas pelo Conta Lá, durante este mês, no conjunto de reportagens “Natal Sem Pinheiro”, que dão rosto ao número que faz de 2025 o segundo pior ano da última década no que concerne à área ardida, apenas ultrapassado por 2017. As chamas consumiram, este ano, 270 mil hectares. É preciso recuar até 2017, ao fatídico ano de Pedrógão Grande e dos incêndios de outubro na região Centro, para encontrar um valor superior (537 mil hectares).
O verão de 2025, o mais quente desde que há registos (1931) de acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), ficou marcado por violentos incêndios, sobretudo no interior do país.
Os dados da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais e do Instituto da Conservação da Natureza e da Floresta mostram que, apesar de o número de incêndios rurais ter sido inferior à média registada nos últimos dez anos, a área ardida foi praticamente o dobro da média para o mesmo período.
Só em agosto arderam cerca de 217 mil hectares (mais de 80% do total). Os relatórios destes organismos revelam um “aumento notável” dos fogos de grande dimensão, destacando seis incêndios com mais de 10.000 hectares e que representaram 59% da área ardida deste ano.
As regiões do Norte e Centro foram as mais afetadas. O distrito mais devastado foi a Guarda com 83.790 hectares, cerca de 31% da área total ardida no país, seguido de Viseu com 42.183 hectares (16% do total) e de Castelo Branco com 39.313 hectares (15% do total).
As chamas cercaram aldeias, ameaçaram populações e deixaram marcas indeléveis. Morreram quatro pessoas (um bombeiro, um sapador, um ex-autarca e um operador de máquina), estando em investigação as mortes de outros dois civis por queimadas ou acidentes. Mais de uma dezena de casas de primeira habitação foram destruídas.
Meses depois da passagem do fogo, a paisagem permanece ferida nas margens do rio Paiva, em Arouca, e no Gerês, que Miguel Torga outrora descreveu como um sítio onde “tudo se conjuga para que nada que falte à sua grandeza e perfeição”. Em ambos os locais, os negócios e os operadores turísticos procuram reerguer-se.
As reportagens divulgadas pelo Conta Lá recordam como as povoações lutaram contra as chamas, mas também atestam a preocupação das comunidades locais que, ano após ano, temem que o fogo lhes bata à porta.
Uma preocupação para a qual também há (alguns) números. Um inquérito divulgado no final do mês de outubro mostra que Portugal é o segundo país no mundo onde existe mais receio dos incêndios florestais, apenas atrás do Canadá.
O estudo, conduzido pela empresa IPSOS para o Conselho de Gestão da Floresta (Forest Stewardship Council, FSC), envolveu participantes de 50 países e revela que, em Portugal, 43% dos inquiridos apontaram os incêndios como a maior ameaça às florestas, uma percentagem muito acima da média europeia e global, ambas fixadas nos 28%.