“O Último Bolo de Arroz de Lisboa”: mapa de resistência assinala cerca de 300 cafés e pastelarias tradicionais

Criado pelos Vizinhos de Lisboa, este projeto já mapeou mais de 250 cafés e pastelarias tradicionais para documentar perdas e pressionar políticas públicas que evitem o desaparecimento silencioso destes estabelecimentos.
 
Rui Mendes Morais
Rui Mendes Morais Jornalista
16 fev. 2026, 08:00

Não fecham com cartazes de liquidação ou anúncios de falência. Um dia estão abertos, no outro já deram lugar a uma nova cadeia comercial. Em Lisboa, cafés e pastelarias tradicionais estão a “desaparecer silenciosamente”, uma situação que que se arrasta há anos mas que se acelerou nos últimos meses. Cenário que levou à criação de um mapa do comércio tradicional que ainda resiste e do que já encerrou por um grupo de moradores. 

Apelidado de “O Último Bolo de Arroz de Lisboa”, o projeto é promovido pela associação cívica Vizinhos de Lisboa, formada por núcleos das várias freguesia da cidade. O bolo de arroz foi  o doce escolhido para dar rosto a esta bandeira, que tem vindo a ganhar força nas redes sociais, por ser um produto transversal ao cafés tradicionais de lisboa e ausente na maioria dos conceitos comerciais contemporâneos.

A ideia de realizar o mapa de resistência, surgiu em Arroios, uma das freguesias “muito massacradas” pela presença do turismo, pela multiplicação de bares e esplanadas, contratos de curta duração, alojamento local, carga fiscal, dificuldades na sucessão entre gerações ou o aumento abrupto das rendas comerciais. Fatores que tornam cada vez mais difícil a estes espaços comerciais aguentarem de portas abertas, defende ao Conta Lá, Rui Martins, membro da associação Vizinhos em Lisboa.

Por esta altura, o mapa conta já com cerca de 300 estabelecimentos mapeados, sobretudo cafés e pastelarias tradicionais ainda em funcionamento, incluindo também cerca de duas dezenas de estabelecimentos já encerrados nos últimos anos, assinalados como “óbitos”. Entre os resistentes estão ainda a Pastelaria Docel, o Snack D' Avenida, o Café Limiana, o Almirante Café ou a Pastelaria Lisboa, entre outros cafés e pastelarias que estão a ser metodicamente registados desde o fim de 2025.
 

Mapa criado pelos Vizinhos de Lisboa

 

Do comércio tradicional ao fast food

O encerramento da Confeitaria Vitória, na Estefânia, é um dos momentos destacados pelo morador, que frisa que o estabelecimento “fechou e, poucos dias depois, já tinha sido substituída por um Burger King. (…) Não houve sinais de crise nem de falência (…) pelo contrário, parecia financeiramente saudável”, sublinha Rui Martins. Para os Vizinhos de Lisboa este caso serve de explicação para o que têm vindo a tentar resumir com a expressão “desaparecimento silencioso”: substituições rápidas, sem aviso público, sem mecanismos de alerta e sem qualquer intervenção preventiva por parte do município.

O mapa, ainda aberto e em permanente construção, resulta do levantamento feito pelos próprios moradores e dos contributos enviados pelas redes sociais e por email, que tem levado à expansão do mapa. Para definir quais os estabelecimentos que são incluídos, o grupo de vizinhos recorreram a critérios simples: como a venda de produtos clássicos (lá está o bolo de arroz, por exemplo) a gestão familiar hereditária e a ligação do comércio às memória dos moradores e das regiões. 

“Procuramos locais reconhecidos pela comunidade, onde as pessoas cresceram e criaram rotinas”, explica o membro da associação dos Vizinhos de Lisboa, reforçando a importância dos cafés e comércios de bairro. O fecho destes espaços tem impacto direto na vida das localidades, não só pelos doces, mas antes pela forma como “funcionavam como pontos de encontro e de vigilância informal (…). Quando desaparecem, perde-se a coesão social”, frisa Rui Martins.

Ausência de um sistema municipal de monitorização

No plano das políticas públicas, os promotores do mapa apontam limites claros às medidas existentes. O programa Lojas com História, da Câmara Municipal de Lisboa, é reconhecido, pelo coletivo de vizinhos, como um instrumento positivo de valorização do comércio histórico, mas considerado insuficiente face à escala do problema. “É um programa meritório, mas tem uma cobertura reduzida e apoios que não acompanham a pressão real do mercado imobiliário”, afirma Rui Martins. 

Segundo a associação, a ausência de um sistema municipal de monitorização contínua no comércio tradicional impede a identificação precoce de estabelecimentos em risco, e torna a intervenção pública quase sempre tardia. “Quando a autarquia atua, o encerramento já aconteceu”, refere. O coletivo defende a criação de uma articulação mais estreita entre políticas de comércio, habitação, turismo, ruído e licenciamento, alertando que a substituição de negócios de proximidade por cadeias globais não resulta de falhas individuais, mas de um modelo urbano que favorece operadores com maior capacidade financeira.

Além deste mapa, a associação destaca-se pelos mapeamentos cívicos de outros itens, como escadas rolantes inoperacionais nas estações de metro da cidade, passadeiras perigosas, azulejos históricos ou pontos de correio antigos. 

Para os Vizinhos de Lisboa, o objetivo do mapa não é apenas documentar perdas, mas influenciar decisões. “Não faz sentido agir apenas depois do fecho”, sublinha Rui Martins. O levantamento pretende servir como instrumento de diagnóstico para as autarquias, permitindo identificar zonas de maior pressão e antecipar situações de risco antes do encerramento dos estabelecimentos.